D.O: Elfo Guardião


“Em vilarejos afastados encontram-se seres que o homem zomba da possível existência.
Dentro de uma floresta mágica, uma jovem bruxa procura sua alma gêmea com veemência.”



Era fim de tarde, os últimos raios de sol abraçavam sua pele de modo caloroso, era como sentir um abraço reconfortante de um anjo protetor. O relógio marcava sete e meia, e então tudo estava pronto.
Uma enorme clareira em uma floresta distante do vilarejo, uma fogueira ardente em chamas, pétalas de rosas e um aroma adocicado e leve de Cestrum nocturnum, mais conhecido como dama da noite. Tudo estava pronto, e até mesmo os deuses haviam parado suas atividades divinas para ouvirem com mais clareza o seu pedido.
— Desejo conhecer um homem. Ele deve ter pele clara, como um chumaço de algodão. Olhos grandes, como uma janela para o mundo que o cerca. Cabelos negros e macios como fio de seda. Ele deve andar de modo suave, deve ter um cheiro natural de menta e hortelã e, para que não passe despercebido por mim, deve ter os lábios em formato de coração e um olho de cada cor. — Você ordena divertida com um sorriso largo, alegrando-se entre cada palavra e pedindo aos céus que o homem de sua vida passe a existir a partir deste momento.
 O pedido foi selado, as pétalas de rosas foram jogadas ao fogo, no mesmo momento em que enormes faíscas subiram aos céus, quase a queimando. O que só aumentou ainda mais suas esperanças.
Havia sido concebida desta maneira, em uma tradição de família pagã. Sua mãe pediu aos deuses que trouxessem seu pai com todas as qualidades e aparência peculiares desejadas pela matriarca da família.
Seu pedido foi feito e selado, e agora tudo o que deveria ser feito era o jantar em sua casa, à espera do homem de sua vida.
 Seus paços alegres e apressados pela floresta de volta ao vilarejo eram nítidos, algumas folhas e galhos eram despedaçados e amassados por seus pés desastrados. A noite definitivamente cairá enquanto estava ocupada demais fazendo seu pedido e sonhando com os olhos abertos e, embora seja desastrada e alheia o suficiente para se perder, estava confiante demais.
— Oh ama de leite, espere até ver o rapaz que imaginei e pedi aos deuses para mim.— Você dizia consigo mesma, ensaiando as palavras para dize-las a sua ama de leite ao retornar para casa.
— E como ele se parece? — Perguntou uma voz suave e curiosa atrás de arbustos e árvores, você não se espantou, imaginou que não se passava de um beberão intrometido na floresta.  Apenas bufou e continuou a caminhar, por algum motivo, bem mais lentamente do que antes.
O farfalhar das folhas e o som de galhos se quebrando tornou-se alto. Seus calcanhares giraram instintivamente, mas seus olhos demoraram a registrar a imagem de um par de olhos grandes e fixos em seus semelhantes.
Ainda por detrás de alguns arbustos, o par de olhos pisca algumas vezes e, logo acima, um par de orelhas pontudas balança algumas vezes, como se estivesse captando algum sinal; como uma antena ou um animal atento aos sons a sua volta.
 Você se aproxima um tanto receosa, mas é bem recebida e agraciada com a visão de um elfo, cerca de trinta centímetros mais alto que você, vestindo roupas bonitas e costuradas a mão, camisa verde musgo e bermudas da mesma cor em camurça, sapatos pontudos e pretos, como os que você usa em aulas de sapateado. Ele possui pele clara como a neve, lábios bonitos e chamativos em formato de coração. Suas mãos ousam tocar as orelhas pontudas, mas você não faz por receio.
— Olhos grandes, pele branca e boca em formato de coração — Você constata em voz baixa, comparando ambos, mas para si mesma do que para o outro que continua olhando-a com curiosidade. — Um olho de cada cor e orelhas normais. — Você afirma um pouco mais alto, desapontada por não ter seu pedido atendido, não por hora. Seu cenho se franze e um suspiro de decepção é preso em sua garganta. Você continua seus passos, porém desanimada suas pernas recusam-se a fazer outra coisa a não ser perambular devagar.
— Mas orelhas pontudas não são ruins, aposto que minha audição é cem vezes melhor que a sua. — O elfo se defende enquanto começa a andar atrás de você, também em passos lentos, como se quisesse prolongar o contato até se defender de todos os possíveis defeitos apontados.
Você finalmente bufou, de longe não é a primeira vez que vê seres místicos pela floresta. E entre todos, os elementais eram os piores; elfos, gnomos e duendes, todos muito astutos e inteligentes, porém extremamente sensíveis e narcisistas. Alguns eram até mesmo rudes e agressivos, outros pregavam peças, e levavam isso muito a sério.  
— Deve ser, com toda certeza, mas suas orelhas são cem vezes mais feias também.— Você zombou, não se contendo e rindo baixo. Seus passos aumentaram, procurando manter uma distância segura do elfo, que franziu seu cenho, cruzou seus braços e a olhou feio. Suas orelhas mexeram-se novamente, e a gola de sua blusa subiu. Você supôs que o outro estava tentando, debilmente, esconder suas orelhas, o que a fez sentir-se culpada, mas ainda assim travessa.
Seus passos continuaram, e os do elfo também, sem se importar.
 — As bruxas não têm vindo mais a clareira... faz um bom tempo que não vejo nenhuma pela floresta. — O elfo puxou assunto, mas você mal deu ouvidos. O vento forte da noite batia contra as árvores, levantava poeira e remexia os galhos no chão, os uivos de lobos começavam a contagiar a floresta. A escuridão continuava tomando conta da noite, transformando o azul purpura em um índigo escuro, quase negro. O céu clareava vez ou outra pelos relampejos, em breve choveria e a escuridão seria completa. Ainda faltavam bons quilômetros para o vilarejo.
Você nunca odiou tanto o verão, época propicia para os feitiços do coração e chuvas árduas e trovoadas ao anoitecer.
O elfo parecia querer lhe fazer companhia, mas isto de nada seria valido se tivessem de correr de lobos ou trovões, ou ambos.
— Elfo, você só está se esquecendo de uma coisa — Diz ao parar seus passos, ainda distraída com o caminho que terá de fazer. — Você está seguindo, mas o seu caminho é pelo lado contrário, e bruxas não fazem lobos famintos desaparecerem. — Você finalmente o olha e contempla sua face confusa e bela.  
— Está chovendo — Ele sorri e estende a mão, enquanto os primeiros pingos da noite caem sobre você e ele, e consequentemente sobre os lábios rosados em formato de coração que por segundos retirou-lhe o ar e toda a atenção. — Eu quero ouvir mais sobre o homem que você pediu. E eu tenho uma cabana, com chocolate quente de elfos. — Ele propôs com um belo sorriso, ainda maior. Você pensou em recusar pela lista extensa de encrencas a não se meter novamente com um elfo, mas os uivos de lobos, agora não tão mais distantes, continuavam e continuavam...
Chocolate quente dos elfos não poderia ser recusado, jamais.
 Você afugentou todos os pensamentos e seguiu o elfo até sua cabana, que ficava devidamente escondida por algumas árvores, flores coloridas com cheiro de tutti-frutti e arbusto verdes e vívidos, apenas a alguns passos de distância.
 Você tentava ao máximo não pensar que este era quase, quase, o homem que desejou aos deuses. E por deus, faltavam-lhe apenas orelhas normais e um olho de cada cor.
 Esperava que o elfo fizesse alguma travessura ou brincadeira, que um bande enorme de mel azedo e penas de ganso caíssem em sua cabeça assim que entrasse pela porta da cabana, para assim acabar com todo encanto mágico que parecia se apossar do momento. Mas não aconteceu, você entrou receosa, e sobre uma pequena cadeira na cozinha, perto da mesa de jantar, sentou-se.
O elfo deslizou suas mãos pelas roupas que usava antes de entrar em sua casa, como se tentasse tirar algum resquício minúsculo de sujeira presente em suas roupas simples.
Suas orelhas se mexeram e a gola de sua camisa voltou ao lugar, você observou bem e riu baixo enquanto o outro depositava uma xícara generosa de chocolate quente sobre a mesa, bem a sua frente.  
— Qual é o seu nome?
— Kyungsoo. O seu é , certo? — Você concorda silenciosamente, nada impressionada pela inteligencia e astucia do elfo. 
—  Que tipo de elemental é você? — Perguntou curiosa.
— Um guardião... Me diga, por favor, porque as bruxas sumiram?
— Não sumiram, apenas estão escondidas. Ainda há padres querendo nos queimar.— Você riu, mas o elfo permaneceu sério, como se não tivesse gostado nem um pouco da piada.
Por vergonha seus dedos apertaram-se entorno da xicara de chocolate, e mesmo quente, você o tomou. Indisposta demais para ir embora sem saboreá-lo por completo, e com pressa o bastante para não espera-lo esfriar.    
Kyungsoo segurou seu pulso no terceiro gole, que provavelmente queimaria sua garganta como os dois primeiros, o cenho do mesmo se franziu e de súbito perguntou. — As bruxas escolhem seus pretendentes não é? — Você afirmou silenciosamente. — Como é a pessoa que você escolheu?
— Como você... eu não pedi que fosse um bruxo, mas no fundo desejei que fosse. Pedi que tivesse um olho de cada cor e lábios em formato de coração, então não passaria despercebido e eu teria certeza absoluta de que o achei assim que o visse. É um feitiço antigo, e funciona quase que imediatamente, mas sinto que sem êxito perdi os meus poderes. — Mordeu seu próprio lábio, talvez por habito, ou talvez por nervosismo em desabafar com uma criatura que não conhecida, conhecia elfos mas ainda assim Kyungsoo era um estranho. E ao contrário do que havia previsto, Kyungsoo sorriu malicioso e retirou a xícara de chocolate de suas mãos, debruçou-se suavemente sobre a mesa pequena e gelada e alcançou seu queixo com os dedos gelados de modo rápido, você fechou seus olhos por instinto.  
Kyungsoo selou seus lábios, os mordiscou e os sugou levemente, tentando-a a ceder espaço para um beijo terno, e assim o fez. Ele emanava tranquilidade e suavidade, senti-lo tão perto trouxe arrepios a você, a deixou tentada a abraça-lo e desfrutar das caricias que sua mãe gelada poderia fazer, dos arrepios gostosos que uma boa companhia pode trazer e do cheiro de menta impregnado em sua roupa de elfo, bem perto de sua gola, bem perto de seu pescoço.
 Um tanto desorientada e surpresa, retribuiu ao beijo repleto de ternura e acariciou a nuca do elfo, entrelaçando seus dedos aos fios negros deste enquanto sentia o gosto doce do chocolate antes provado e do hálito sempre doce de elfos.
Kyungsoo a prendia em um beijo molhado e gostoso enquanto distribuía caricias pela extensão de seu pescoço, mordiscando levemente seu lábio vez ou outra.
Você imaginou que daria aqueles suspiros satisfeitos e clichês de filmes de romances, e somente este pensamento foi o bastante para deixa-la corada, embora ainda estivesse retribuindo ao beijo com maestria.
 — Elfos podem ser tão bons quanto bruxos. — O elfo sussurrou ao pé de seu ouvido quando enfim quebrou o ósculo.


Elfos minha doce tentação.