Zelo: Born on a different cloud



Um dos elementos mais misteriosos que temos na Astronomia é a matéria escura. Trata-se de matéria que não pode ser observada diretamente, e que só interage com a matéria que observamos gravitacionalmente […]; a voz ecoava dentro do espaço escuro, no qual você se encontrava, ao mesmo tempo em que se era projetado, no ambiente limitado, as luzes que deveriam representar as estrelas e constelações do universo.
— Isso é um porre! — proferiu uma voz masculina exaltada.
Havia pouquíssimas pessoas que pareciam estar realmente interessadas no assunto; dentro da pequena sala, podia ouvir-se o rebuliço de vozes adolescentes misturadas aos ecos da gravação. Era compreensível que assuntos como a Astronomia não fossem peculiares a jovens de quinze e dezessete anos; o alvoroço dos hormônios nesta idade os impede mesmo de prestar atenção em qualquer coisa que não seja sexo. Mas, esse não era o seu caso e você não tinha paciência para ouvir a lamúria de “crianças”.
Cabular a aula para assistir a uma nova teoria no planetário em pleno dia de semana fora uma péssima ideia. Você aplaudia-se mentalmente pela ingenuidade de pensar que o local estaria vazio em uma segunda-feira à noite.
[…]
Aquele sentimento de formigamento e melancolia se proliferava por todo seu corpo. Os passeios ao planetário sempre a fizeram sonhar demais, mas dessa vez, conseguiram mesmo abalar com seu estado de espírito. A angústia em relembrar da imensidão do universo a tonteavam pela quantidade de informações válidas apresentadas para provar que, sim, a humanidade poderia ser observada por outra forma de vida inteligente e de que a mesma poderia residir em outro ponto da galáxia.
Não sabia explicar o quanto isso a assustava e a fascinava, como também aumentava sua paixão pela Astronomia. Caminha solitária até a parada de ônibus e põe-se a admirar o céu pouco escuro. Observa, ao longe, o mesmo grupo que não se calara durante a apresentação sair resmungando da perda de tempo em ter passado duas horas trancados ouvindo “baboseiras sobre as estrelas”. Sua face não controla uma expressão automática de descontentamento ao ouvir tal comentário e você apressa-se subindo no primeiro coletivo afastando-se o mais rápido do local.
Troca uma nota de dez com o cobrador e passa a catraca, sentando à janela. Recosta sua cabeça no vidro e aproveita o tempo que vai passar ali dentro para refletir sobre seu aprendizado somado a sua experiência.
— Não estamos sozinhos com tamanha imensidão... Olhe o tamanho do universo! — resmungou baixo a si mesma — Como podem falar asneiras de uma ciência tão antiga e venerada desde os tempos remotos?
Admirando a paisagem ser deixada pra trás, acomoda-se melhor ao assento e aperta a barra da camisa para descontar sua frustração. O seu mau hábito de não carregar nenhum aparelho eletrônico para não ser encontrada ou procurada, de certo modo, às vezes a irritava.

● ● ●

O olhar da síndica sobre você lhe causavam arrepios; aquela mulher sabia ser bastante assustadora sem ao menos abrir a boca. Sem nenhum contratado ao cargo de porteiro, restava a mulher ficar acomodada na pequena cabine de recepção, por vezes, rondando o prédio em busca de algum novo boato sobre os vizinhos. A fachada de “boa vizinhança”, que outrora atraía interessados no imóvel, poderia ser descartada convivendo-se por algumas horas sob as leis criadas em uma reunião administrativa do prédio comandada, claro, pela síndica.
Sorriu amarelo ao cumprimentar a mesma, que não deixou passar a oportunidade de provocá-la com outro comentário duvidoso.
— , está voltando da aula a esta hora? Não está meio cedo? Digo, onde está sua bolsa querida? — ela inclinou-se atrás do vidro para observá-la melhor.
— … — um argumento errado e seria o suficiente para você virar assunto da pauta da próxima reunião — Fui assaltada, não vê?
— Não parece muito abalada para alguém que foi assaltada... — ela cruzou os braços a provocando.
— Estou mesmo com pressa, então, nos falamos por aí. — cortou o assunto, acabando com qualquer chance da mulher rebatê-la.
Caminhou em passos arrastados pelo saguão, rumo ao elevador, encenando um mal-estar. Percebendo-se longe dos olhos curiosos da síndica, apertou o botão do elevador, tamborilando os dedos na porta de metal para se distrair com sua demora. As portas abriram-se silenciosamente e seu corpo moveu-se automaticamente até o lado direito, apertando o seis. Olhou o próprio reflexo na espelho, percebendo algumas olheiras e uma expressão cansada.
— Olhando dessa forma nem dá para dizer que sou uma universitária... — esbofetou as mãos contra as próprias bochechas e suspirou — É o que dá me alimentar mal e ficar até altas horas na internet...
As portas abrem-se revelando o corredor escuro e vazio. Somente você morava nesse andar e o imóvel ao lado continuava sem um morador fixo. Por vezes era alugado por outros estudantes, mas devido as regras rígidas e a implicância da síndica, ninguém realmente se interessou em ficar ali. Como construir uma boa relação com os vizinhos se nem um vizinho você tinha? Havia dado este mesmo argumento na última reunião administrativa e como resposta recebera comentários maldosos por parte dos outros moradores; inclusive, foi aí que começou a receber a implicância da síndica.
Parou de relembrar destas memórias desagradáveis e voltou sua atenção a porta fechada a sua frente. Retirou a pequena chave do bolso traseiro e encaixou-a na fechadura, destrancando a porta e entrando na pequena sala; chutando os sapatos para longe, se espreguiçou enquanto caminhava ao quarto e deixou o corpo desfalecer exausto sobre a cama de solteiro.
Deitada de bruços, abraçou o travesseiro e fechou os olhos tentando mentalizar as imagens das estrelas novamente. Não sentia saciedade em apenas vislumbrá-las visitando o planetário, desejava poder vê-las e estudá-las por si mesma, sem precisar aturar a companhia de outras pessoas.
Mira em um ponto fixo no quarto; atrás da porta há um pôster de um dos filmes de ficção científica que você assistira quando adolescente e que despertara a sua curiosidade e paixão pelo universo. Rebusca um pequeno sorriso e desenterra memórias suas comprando DVDs pirateados pelos colegas de classe por um preço acessível na época.
— Gostaria continuar recebendo mesada... — resmunga — Podiam ser mais generosos por eu estar aqui.
A razão para sua lamentação não poderia ser para menos; o pouco dinheiro que recebia da bolsa de estudos mal cobriam suas reais necessidades. Estivera estagiando por um tempo, mas não aguentara a pressão de produzir relatórios diários sobre as suas atividades exercidas no local. Seus pais não lhe enviavam nenhum centavo pela frustração em ter de aceitar que você moraria em outra cidade para cursar uma faculdade que não havia lá.
O receio e o medo da solidão quase a fizeram desistir da ideia de sair de casa; o seu sonho morreu, e a tristeza se confinou em todo o seu ser. Ainda se lembra com clareza de brigar com os pais e sair somente com uma mochila, os documentos e a esperança na bagagem. A sua liberdade exigiu sacrifícios e o preço, por mais insuportável que fosse, foi pago. Não se sentia triste pela escolha tomada na vida, ao contrário, orgulhava-se em contar a história a quem quer que desejasse escutá-la.
O sono chegara anunciando sua presença ao fazê-la fechar os olhos e cochilar como uma pedra.
[…]
Após as inúmeras reflexões daquele dia, resolveu se dar o luxo de atender a um único desejo; juntou, em dois meses, uma boa quantia em dinheiro e partiu com objetivo de voltar com um telescópio de qualidade para observar o céu, do jeito que tanto ansiava.
Carregou a caixa de forma que a síndica não a enxergasse quando passasse pela portaria; ultimamente, passar agachada por ali estava se tornando um hábito e não seria diferente hoje.
Entrou no apartamento, trancando a porta atrás de si e sentando no chão da sala para montar o equipamento. Estrearia o seu amado telescópio ainda naquela noite, estava decidido.
Firmou o suporte próximo a janela do quarto e esperou o anoitecer. Estava cabulando aula novamente e precisava agir como se não houvesse ninguém dentro do apartamento, para tanto, as luzes permaneceram desligadas. O relógio marcava 16 horas; logo, se dormisse durante todo esse tempo acordaria disposta para madrugar admirando as estrelas.
Atirou-se a cama, procurando o celular para cronometrar o despertador para as 20 horas. Deu uma última olhada no telescópio e foi fechando os olhos vagarosamente, até o ouvir somente o som de sua respiração batendo no travesseiro. Quando sentiu o corpo começar a amolecer e relaxar, de súbito, deu um grande pulo da cama ao chão.
— Como é que eu vou estrear meu telescópio com toda essa iluminação? — questionou-se sentada no mesmo lugar aonde havia caído — O que eu faço agora?
Morando na metrópole, que nunca dorme totalmente, sabia que era impossível prestar atenção ou ver qualquer coisa no céu com toda a luminosidade à noite. O que faria, então? Levantou-se e pôs se a pensar numa solução para o problema. Voltou a olhar o pôster atrás da porta, sem ao menos piscar; parecia buscar alguma ideia a partir das imagens contidas no mesmo. Os olhos se arregalaram e acabou por encontrar exatamente o que precisava.
— É só partir para o meio do mato! Que óbvio! Como não pensei nisso antes? — estalou os dedos felicíssima.
Procurou o celular, debaixo do travesseiro, e resolveu pesquisar por algum local pouco isolado, como uma mata, porém que tivesse um meio de transporte acessível a si mesma para chegar até lá. Gastou alguns minutos até encontrá-lo e traçar uma rota alternativa para chegar ao mesmo.
Abriu o guarda-roupa e retirou sua bolsa favorita de lá; desmontou o telescópio e guardou-o na mesma, junto a uma garrafa d'água. Deu uma última checada rápida, antes de desligar o celular e atirá-lo em algum lugar no quarto.

● ● ●

Seu olhar permanecia colado a figura do coletivo desparecendo na curva da estrada vazia. Engoliu em seco e apertou a bolsa contra o corpo, já que havia decidido fazer esse tipo de loucura, então que fosse até o fim. A única fonte de energia elétrica era o poste iluminando a parada improvisada no acostamento da estrada.
Esbofetou o próprio rosto para criar algum tipo de coragem em entrar no matagal atrás de si; nem ao menos havia se voltado para trás para analisar o terreno, temendo encontrar algum bicho peçonhento. Respirou fundo e em apenas um movimento, seguiu, com as pernas bambas, para dentro do mato.
Caminhando por alguns minutos, encontrou uma pequena clareira, onde a vegetação crescia rasteira. Resolveu se instalar por ali mesmo, até porque não tinha experiência em atividades como sair e procurar um bom local para observar as estrelas, então, não se afastaria da estrada.
Respirava o ar puro e observava o ambiente, escutando os sons que ecoavam por entre as árvores, tentando acalmar-se mentalmente de que eram apenas insetos que viviam no mato.
— Insetos vivem no mato... — repetiu a si mesma baixo — E cobras... E aranhas... E... — engoliu em seco — Melhor pensar em animais fofinhos... Veados vivem no mato! O Bambi vive no mato!
Repetia uma pequena lista mental sobre os animais que mais a agradavam, enquanto montava o telescópio habilmente. Você havia pego o jeito depois de quase tê-lo destruído em casa e concluiu seu trabalho fixando as hastes no chão. O tripé parecia firme e você deu uma conferida no céu; as estrelas nunca estiveram tão brilhantes.
Mirou em algum ponto e quando parecia tudo perfeito para iniciar sua observação, escutou um farfalhar entre as árvores que não pareciam ser de nenhum bicho. Sozinha e ansiosa pelo medo em encontrar algum dos bichos que tanto temia, sentiu o corpo amolecer e o coração saltar dentro do peito. Ajustou a lente do telescópio e começou a procurar rapidamente ao redor e após, sobre a copa das árvores, encontrando o causador do barulho.
Um vulto envolvido num manto negro a fitava assustado e você sentiu o corpo enrijecer. Sente o corpo reagir ao medo e tem um pequeno ataque de pânico, voltou a realidade e gritou levando as mãos a boca; o impulso de sair correndo a dominou e você o fez sem olhar para trás.
Seus pés a levaram de volta à estrada e você cai de joelhos abraçando o próprio corpo.
— Estou fodida... O que vim fazer aqui? E ainda, sozinha!
A respiração a incomodava e você tentava raciocinar os acontecimentos daquela noite. Depois de alguns minutos, sentindo o coração se acalmar dentro do peito, relembrou dos pertences deixados para trás na sua fuga; seu telescópio caríssimo.
Sentada no acostamento, você pensava se voltava ou não. Decidiu por voltar, afinal, havia se esforçado e poupado por dois meses para conseguir barganhar por aquele equipamento!
Levantou e sacudiu a poeira das roupas. Ao redor, nenhuma alma viva, portanto, você estava sozinha e numa missão suicida de voltar e arriscar a própria vida por um telescópio. Cautelosamente, se guiou por pontos estratégicos até a clareira, tomando o máximo de cuidado para não produzir nenhum som. Sempre olhando ao redor, os seus sentidos pareciam estar apurados devido ao pânico.
Ao retornar ao local onde havia largado o telescópio, avista o mesmo vulto vestido de preto rondando o objeto e cutucando-o com curiosidade. O mesmo parecia tentar uma comunicação com o telescópio falando algo incompreensível e gesticulando com as mãos. Você permaneceu escondida atrás de uma árvore observando-o, pensando no que deveria fazer.
Do lugar onde estava, agachou-se pegando uma pedrinha no chão e mirou na criatura. Temendo machucá-lo e fazê-lo se irritar consigo, acertou-o de leve na cabeça. A criatura se assustou e andou em círculos pelo local a procura de quem jogou aquilo; você tampou a boca com as mãos, prendendo a respiração. Quase em prantos você permaneceu enrijecida na mesma posição por mais alguns minutos, até escutar outro som que a assustou.
A criatura, assustada, tentou correr e tropeçou em seu telescópio, fazendo você dar um berro indignada; porém, prendendo os pés na haste que fixava o objeto ao chão, derrubou tudo, quebrando-o. O mesmo foi de encontro ao chão, ficando enroscado na própria vestimenta e soltou gritos agudos que mais pareciam ser um choro. Você ficou chocada com o que viu.
— Bem feito, tomara que tenha se machucado por fazer isso com o meu telescópio caríssimo! — resmungou escondida.
Vendo que estava preso nas próprias roupas, decidiu esperar para ver se era perigoso se aproximar e resolveu ajudá-lo. Caminha em direção ao mesmo e o cutuca levemente, fazendo o mesmo se encolher e chorar mais baixinho. Com muita dó, tenta desenroscá-lo devagar, com receio de machucá-lo ainda mais.
— Está tudo bem... Está tudo bem, eu vou ajudar você... — repetia, mas o outro não demonstrava entendê-la.
Com um pouco de pena, você tentava retirar aos poucos a capa que estava enroscada no tripé e acabou descobrindo o rosto da criatura. A única iluminação entre vocês era o breu da luz da lua que atravessa em feixes os galhos das árvores. Sua visão está embaçada pela escuridão e você retira uma pequena lanterna do bolso, com objetivo de melhorar sua visibilidade na situação.
A luz da lanterna sobe dos pés a cabeça e você toca em seu rosto, fazendo voltá-lo para si.
— Sim, está tudo bem... Por favor, não tema... — tentava tranquilizá-lo enquanto seu coração parecia descer ao estômago.
Você congelou ao encarar o rosto angelical de um rapaz com alguns machucados e escoriações; assustado, suas lágrimas deslizam em sua face lhe partindo o coração. A lanterna caiu de suas mãos, apagando-se no chão e você o abraça, tentando reconfortá-lo.
— Tudo bem, eu vou ajudá-lo...
Tocada pela suavidade dos lindos olhos do rapaz, afagou seu rosto e ele mordeu os lábios em sinal de dor.
— Me desculpe... Eu sinto muito mesmo! — abraça-o — Vou cuidar destes machucados para você...
O rapaz, não entendo uma palavra do que você diz, tenta levantar e fugir, mas cai novamente e volta a chorar.
— Menino idiota, estou tentando te ajudar... Coopera, né! — resmungou.
Olhou para o prejuízo do telescópio e para o rapaz machucado; resolveu que não havia mais nada para ser salvo, além do rapaz, e vai em direção a ele, sendo um pouco mais rude, afinal, você queria ajudá-lo.
— Meu nome é , entendeu? . — repetia seu nome inumeradas vezes — Não faça isso de novo ou pode se machucar.
Você sentiu muito pelo acontecimento e aproximou-se devagar, tentando conquistar sua confiança, até finalmente poder tocá-lo e procurar em qual parte de seu corpo estivesse mais machucada. O rapaz chorou hesitante e encolheu-se quando você se aproximou, mas deixou que o tocasse.
— Se eu pudesse, escravizaria você até que pudesse comprar outro telescópio... Mas você não parece entender nada do que eu digo mesmo...
Você constou que o rapaz não quebrou ou deslocou nada, mas seria arriscado deixá-lo ali para se virar sozinho. Suspirou pesado, levantou e caminhou até os cacos do telescópio, recolhendo-os e jogando dentro da bolsa. Com a mesma em mãos, deu um jeito de levantar o rapaz e ajudá-lo a se equilibrar apoiando os braços sobre seus ombros. Suas mãos seguram na cintura dele e vocês seguiram de volta a parada, em silêncio.
— Eu vou ajudar você a chegar ao pronto socorro... — observa que ele não carrega nada consigo — E já vi que vou ter de pagar a passagem para nós dois, né? Até teria sido romântico se fosse ao contrário e... Eu já disse o que o meu nome é ? O meu nome é , prazer em conhecê-lo... — Esperou uma resposta e em troca recebeu um olhar fofo — Ah, você deve ser tímido e... Ah! O ônibus! Vamos correr!

● ● ●

Você estava preenchendo uma ficha que pedia as informações sobre o rapaz, o qual estava sentado ao seu lado. Você lia ao mesmo as perguntas e em troca recebia um olhar bobo e fofo, causando-lhe constrangimento. A enfermeira atrás do balcão parecia se divertir com o seu “flerte” falido.
— Seu tipo sanguíneo? — arriscou perguntá-lo.
— … — ele sorriu.
— Um tipo sanguíneo que irrita o meu... — escreveu — Alergia a algum tipo de medicamento?
— … — ele voltou a sorrir.
— Não. — suspirou — Acho que era isso mesmo, agora, espera aqui que vão vir atender você, certo?
Você levantou do lugar onde ambos estavam sentados e devolveu a ficha, ruborizada, a enfermeira e voltou-se ao rapaz acenando em sinal de adeus. Caminhando em passos largos, rumou a saída e sentiu o coração apertar. Um estrondo atrás de si chamou sua atenção e voltou-se encarando o rapaz no chão e esticando o braço direito em sua direção.
— ... ... — ele chamava.
— Você está machucado! Está louco? — diz correndo em sua direção.
— ... ... — ele a abraça pela cintura e treme contra o seu corpo.
— Você lembrou do meu nome... — acariciou suas costas — Puderas, depois de me fazer repeti-lo tanto...
— Hum... — a enfermeira pigarreou — Ele já pode entrar na no consultório... Você pode acompanhá-lo. — ela piscou em sinal de cumplicidade.
— O que está sugerindo moça? — perguntou confusa.
— Estou ajudando você com o bonitão, oras! Não é todo dia que você vai encontrar um partido desses! — respondeu divertida.
— Que mulherzinha atrevida... Você acredita nisso? — sussurrou corada ao rapaz.
Olhou ao redor perdida. O que fazer com alguém que só sabia repetir seu nome? Deixou os pensamentos para depois e entraram juntos na sala de emergência. O enfermeiro limpa os machucados do rapaz, finalizando com um curativo no rosto e uma faixa no pé.
— Foi só uma luxação... Mas é provável que ele tenha uma febre, então, vou receitar alguns comprimidos para retirar na farmácia.
— Vou ter que pagar pelos rem...
— Não é preciso. — foi cortada.
Você segurou sua vontade de dizer poucas e boas ao enfermeiro, maldizendo o mentalmente e sorrindo malignamente enquanto ele receitava tais comprimidos.
Liberados para irem embora, você se vê do lado de fora da emergência, com remédios dentro da bolsa, um rapaz a olhando de maneira fofa e assustada — que sabia dizer somente o seu nome — e que não soltara a sua mão desde o momento que entraram no consultório.
— Vamos para minha casa... — puxou a mão dele levemente indicando que deveria segui-la.

● ● ●

Com medo de ser pega pela síndica chegando em casa de madrugada, vocês passam pela portaria agachados. Não era difícil fazê-lo entender a gravidade da situação já que desde a saída da emergência tudo o que você fazia era imitado por ele.
Entraram no apartamento exaustos. Você atira-se sobre o sofá deixando as pernas ocupando todo o lugar e com o rapaz jogando-se por cima de si mesma também. Olha pasma para o que ele acabara de fazer, mas ele está a observar tudo dentro do cômodo.
— Que susto! — diz olhando para ele — O pior de tudo é que você nem parece fazer por maldade...
Observa que, apesar de estar sobre você, o rapaz continua com uma expressão inocente no rosto. Sem muita de coragem em mover do local onde estava, permaneceu por ali mesmo, tentando raciocinar e juntar os acontecimentos daquela noite antes de, por fim, encorajar-se a tomar um banho. Olhou para o rapaz que estava sobre você, com as mãos espalmadas em seu peito e uma perna em cada lado de seu corpo, sentado sobre si, olhando os objetos da sala.
— Esta cena seria bastante pornográfica se você fosse um pouco mais pervertido. — suspira — Céus, nem ao menos consigo afastar esses pensamentos sujos!
Levanta-se, empurrando com delicadeza o rapaz para o lado, e sinaliza para que ele permaneça sentado no sofá. O rapaz continua sorrindo e parece entender que deve ficar esperando ali.
Você vai ao quarto e separa uma roupa para vestir após o banho, sempre se certificando de que ele continua na sala. Vez ou outra, num pulo ligeiro, espia-o pela fresta e o vê encarando a porta de seu quarto. Sorri consigo ao associar a imagem do rapaz com a de um cãozinho; pensa se deveria insistir para que se banhasse forçando-o a entrar no chuveiro ou não. Conclui, enfim, que o melhor a ser feito era deixá-lo tomar um banho, afinal, já não bastava estar machucado, não precisava estar sujo também.
Volta até a sala parando em frente ao rapaz e pede para que o mesmo se levante dali, mas ele a olha confuso e fofo. Põe a mão no queixo alisando-o e tem a atitude imitada pelo rapaz. Lembra-se de que ele imitou seus gestos há pouco e resolve fazer com que lhe copie agora. Senta-se ao lado dele, segurando em sua mão e levanta, tendo o gesto copiado.
Ele a segue até o banheiro. Dentro do cubículo, você fecha a porta atrás de ambos e tenta ensiná-lo que deve abrir e fechar a porta sempre que estivesse ali dentro. Ele repete seu gesto e você comemora o pequeno progresso entre vocês.
Abre o registro do chuveiro e ele fecha imitando seu gesto ao contrário. Você abre novamente e segura a mão esquerda do rapaz, colocando-a debaixo da água morna que escorria do chuveiro; ele pula assustado e você se vê diante de um dilema. Como demonstrar a ele que deveria se banhar? Uma hipótese passou pela sua cabeça e você ruborizou instantaneamente, mas não era hora para se envergonhar, era tudo ou nada.
Sente a boca ressecar e leva as mãos a barra da blusa que vestia, levantando-a e jogando-a no chão; após, abre o zíper da calça e começa a descê-la de forma desajeitada. Despir-se em frente a um rapaz tão inocente como ele faziam seus pensamentos impuros assolarem a consciência. O rapaz, desprovido dessa vergonha, a imita retirando suas vestimentas e largando-as no chão também.
Você entra no chuveiro de roupas íntimas e ele a segue com as vestimentas que escondiam seu sexo. Ao pegar o sabonete e fazer espuma com as mãos, brinca soprando a espuma e as bolhas na direção dele, que ri e tenta pegá-las com as mãos. Você sorri e passa a espuma pelo seu corpo e entrega o sabonete nas mãos do rapaz. Ele faz o mesmo que você, entretanto, para sua surpresa, ele passou as mãos ensaboadas pelo seu corpo, no mesmo local em que tinha se esfregado.
Você recua o quanto pode dentro do cubículo, encostando-se a parede fria atrás de si. Ele volta a se aproximar e continua passando espuma em você, de maneira inocente; ele não parecia enxergar nada de errado em tocar seu corpo. A inocência dele ia contra os seus pensamentos pervertidos e sua pureza contra seus devaneios inapropriados.
Resolveu que daria um banho no rapaz como se faz às crianças pequenas. Corrigindo os pensamentos em sua cabeça, pegou o sabonete e esfregou-o tranquilamente, limpando os machucados em seu rosto; depois, fez o mesmo em si, contudo, ele insistia em ajudá-la a fazê-lo, causando-lhe um desconforto sem igual. Abraçou-o, ficando frente a frente e o guiou para baixo da água mora, para ambos enxaguarem-se.
Ele também a abraçou e passou os dedos carinhosamente em seu corpo, retirando a espuma de seu rosto. Você, por impulso fecha os olhos e permanece abraçada ao rapaz, embaixo d’água morna, recostando a cabeça em seu peito. Você conseguia ouvir que as batidas de seu coração estavam tranquilas, e acalmavam ao seu coração também. Ficando nessa posição por um tempo, voltou a realidade e ainda abraçada ao rapaz, levantou uma das mãos e fechou o registro.
Pegou a toalha de algodão pendurada no gancho e secou-o, apertando sua bochecha de leve; ele segurou a outra extremidade da toalha e tentou secá-la também, sempre sorrindo de maneira espontânea.
— Como alguém como você pode ser real? — perguntou secando-o os cabelos —Parece um príncipe...
Os olhos percorriam o corpo do rapaz e seus pensamentos poluídos voltaram a cabeça. Ele precisava de uma vestimenta que não fossem aqueles trapos que estava usando e você não possuía roupas masculinas; talvez uma calça de moletom e uma blusa folgada provisórios fossem o suficiente para aquela noite. Levantou o olhar para o teto, esperando que o rapaz se vestisse e depois, sozinha no banheiro, vestiu suas roupas.
Ao sair do pequeno ambiente, deparou-se com o rapaz sentado novamente no sofá, esperando por você. Estava atordoada em não saber nada sobre ele, e ainda assim, abrigá-lo em seu apartamento.
Decidiu ceder a cama a ele por estar machucado e guiou-o até o seu quarto. Sentou na cama e deu um tapinha no lugar ao seu lado para que se sentasse; ele o fez e ficou admirando seu quarto surpreso.
Você levanta-se e ele repete o seu gesto, mas você o faz sentar novamente na cama, segurando-o pelos ombros e ficando parada a sua frente. Sua respiração alterou-se quando ele segurou sua cintura e permaneceu encarando-a.
— Eu sei que isso pode soar estranho... — falou na frente dele — Mas você pode dormir na minha cama. Amanhã saio para comprar umas roupas para você, por isso, fique tranquilo, certo?
— ... — ele disse abraçando sua cintura.
— Tudo bem... Vou cuidar de você... — acariciou o rosto do rapaz e sorriu — Não precisa ficar assustado, enquanto eu estiver aqui vou proteger você. Agora, descanse que amanhã será um longo dia!
Você ajudou-o a se acomodar em sua cama, afagando-lhe os cabelos até que pegasse no sono. Você bocejou e saiu do quarto deixando a porta aberta; voltando a sala, deitou-se no sofá e ficou observando-o dormir profundamente em sua cama.
— Boa noite, bonitinho.
[…]
O motivo do rapaz não entendê-la você não sabia, mas esforçou-se ao máximo para descobrir de onde viera, o que o levara a estar no meio do mato aquele dia ou se estava perdido.
— Vamos lá, me diga bonitinho, você é estrangeiro? — perguntou entregando-o um sanduíche.
— — ele respondeu sorrindo fofo.
— Hum... Você só repete o meu nome... Já vi que desse jeito vamos andar sempre em círculos. — pensou um pouco — Já sei! É só ensinar a minha língua para você! Venha, temos muito a fazer!
Resolveu dedicar-se a ensiná-lo sobre o nome dos objetos, suas utilidades, mas ele insistia em repetir o seu nome e você sem saber nada sobre o nome dele; com certeza um nome ele possuía.
— O que você acha de um apelido até eu descobrir o seu nome? — sugeriu.
— Apelido. — repetiu e sorriu.
— Isso, um apelido! — acariciou sua bochecha — Eu não posso chamar você só de menino o tempo todo! Vou procurar um bem bonito!
Lembrando-se de um dos filmes que você assistira quando adolescente na escola, sobre a mitologia grega, lembra-se de que Zelo era considerado o deus da rivalidade e já que ele tanto a imitava, pensou em colocá-lo este.
— Zelo? — sugeriu — Zelo é de seu agrado?
— Zelus... — repetiu.
— Zelo... Repita junto comigo Zelsuz... — você enrolou-se e acabou rindo de si mesma.
— Zelo? — perguntou confuso.
— Você gosta de Zelo? — ele concordou — Então a partir de agora, seu apelido é Zelo! Apesar de não fazer jus a essa personalidade fofinha...
— ... Fofinha... — Zelo recostou a cabeça em seu ombro.
— Oh, puxa... Eu... Eu tenho de ir a faculdade! — escondeu o rosto corado e correu para pegar a bolsa — Você fica aqui e eu volto mais tarde, certo? Essa é a sua primeira vez sozinho aqui, então, pode mexer no que quiser que eu não vou ficar zangada. Até mais tarde, Zelo! — lançou um beijinho no ar.
— ... — Zelo suspirou triste quando você saiu pela porta.
Sozinho no apartamento, Zelo levantou-se e começou a tocar nos objetos e repetir aquilo que você o ensinara. Ele entrou em seu quarto e começou a mexer com curiosidade em suas coisas, encontrando algo que lhe despertou o interesse, entre um de seus DVDs de ficção científica, estava uma comédia romântica. Como demonstrado por você, ele ligou o aparelho e passou a tarde o assistindo. Numas das cenas protagonizadas pelo casal, há um beijo terno sob um dia de chuva, e Zelo parece encantado.
Vez ou outra, repetia e parecia prestar mais atenção tanto na língua como nas cenas. Zelo abraça seu travesseiro e imita o beijo que vira, corando e abraçando o objeto perto do corpo.
— ... — Choramingou a falta de sua presença — Voltar logo.
À noite, quando voltou de sua aula, arrastou-se pela portaria, como de costume, fugindo da síndica que conversava inquieta ao telefone. Apressou-se em chegar logo ao apartamento e parou segurando a maçaneta da porta.
— Será que tudo foi um sonho e estará tudo desligado e vazio quando eu entrar? — olhou ao redor e viu que nada havia mudado no sexto andar; o imóvel ao lado continuava vazio.
Destrancou a porta e encarou as luzes desligadas. Suspirou triste, e acendeu o interruptor encontrando Zelo sorrindo sentado no carpete. Ele levantou e correu para abraçá-la apertado, e você sentiu toda sua aflição sumir rapidamente.
Vivendo sozinha por quase três anos, sentia a falta do calor humano ao chegar em casa. Sonhava em um dia, ser recebida com abraços, beijos e poder trocar uma ideia com alguém que você gostasse. Lá no fundo, possuía um desejo egoísta de poder ter uma família saudável e divertida, diferente da de onde viera.
— , como foi dia? — Zelo perguntou de repente.
— Ah, nada fora do normal... Estudei para burro e fugi da sínd... — arregalou os olhos — Você está falando!
— Então, dia ruim? — ele fez um bico.
— Foi uma droga! Mas, isso nem me importa mais! — seu sorriso estava contagiando o humor de Zelo — Ver você aqui valeu por todo o dia!
— Zelo... Fez jantar. , comer?
— Você só precisa melhorar um pouquinho o seu vocabulário, mas não vou parar de sorrir pelo resto do dia! — deu-se de conta sobre o que ele disse — Você cozinhou?
— Sim, Zelo cozinhou.
— Puxa, desse jeito você é um partidão! Quer casar comigo, Zelo? — disse divertida e caminhando ao lado do rapaz para cozinha.
— … — Zelo deixou-a ir a frente e seguiu com um enorme sorriso no rosto, fazendo seus olhos quase sumirem.
[…]
A semana passa-se de maneira agradável ao lado de Zelo, mas ele parecia entendiado em ficar sempre no apartamento esperando por você. Zelo encontrou um hobbie de ficar lendo e mexendo em suas coisas, que aos olhos dele pareciam um tesouro. Ao chegar de suas aulas noturnas, o rapaz sempre a esperava sentado no carpete da sala, com os braços estendidos em sua direção e esperando seu abraço.
Você resolveu levá-lo ao terraço para respirar ar fresco e ele pareceu muito contente pela sua atitude. Vocês começaram a ficar muito próximos. Vivendo grudado em você para tudo, vocês passaram a banhar-se juntos, afinal, Zelo não fazia nada de errado consigo. O relacionamento ente vocês era completamente inocente e puro. Você sentia-a preenchida e acolhida ao desfrutar da companhia de Zelo, e ele parecia sentir o mesmo.
Passou o tempo ensinando-o novas palavras e saindo escondido com o rapaz nas madrugadas. A síndica pegava cada dia mais no seu pé e você jurou a si mesma que não agiria do jeito que ela desejava. Se pretendia armar alguma contra você, era melhor que ela também estivesse preparada.
Em uma determinada quinta-feira, você acorda com fortes dores abdominais e resolve permanecer em casa; está deitada na cama em posição fetal, apertando o ventre, e temendo que seja exatamente aquilo que estava pensando, sua menstruação descendo. Zelo fica preocupado e deita-se atrás de você, se encaixando em posição de conchinha, a mão dele desce até seu ventre, parando sobre a sua e acariciando-a.
— , está doendo aqui? — ele sussurrou em seu ouvido.
— Sim... Eu só preciso ficar um pouco deitada. — suspirou — vai passar logo.
Mais tarde, naquele mesmo dia, precisava de espaço ao tomar banho e trancou Zelo do lado de fora do banheiro. Gritou de dentro do cubículo que ele precisava tomar banho sozinho porque você não se sentia bem. Ao sair do banho e esperar pelo rapaz na sala para tentar explicar que meninas menstruavam, ele a admira sorrindo sem entender bulhufas do que aquilo seria, mas entendendo que você precisa estar sozinha.
Nos próximos dias, Zelo fica distante e você acha que disse algo errado, fazendo-o estar com raiva. Ao tentar falar com ele, o rapaz dá um jeitinho de escapar e você acaba chegando ao seu limite, chorando porque acha que ele está com raiva.
— Desculpa, Zelo... — falou entre soluços — Você me odeia, né? Eu não sabia que isso fosse incomodá-lo tanto! Eu não quero que você se faste de mim, por isso, por favor... — disse parada em frente ao rapaz — Não se afaste de mim, Zelo... Eu não suportaria perder você...
— ... — Zelo assusta-se ao vê-la chorar e repete as palavras que você disse a ele quando se conheceram, abraçando-a — Tudo bem, vai ficar tudo bem...
— Nunca mais se afaste de mim assim... — diz abraçada a ele — Não vou largá-lo tão cedo pelo tempo que me ignorou!
— Oh, está chovendo... — disse de maneira fofa — Assim está perfeito!
Você levanta a cabeça para compreender o que Zelo disse e assusta-se ao perceber seu olhar fofo dominá-la. Abraçados, numa posição nada favorável a você, Zelo leva a mão direita até sua bochecha, acariciando-a. Você entreabre os lábios, desejando dizer-lhe algo, mas sente a garganta seca.
Zelo umidifica os lábios, sem saber muito bem o que estava fazendo e fecha os olhos, aproximando o rosto ao seu. A respiração quente dele contra seu lábio superior, fizeram seu coração acelerar dentro do peito. Ele lembrou-se do filme que havia assistido inúmeras vezes, escondido de você, e deixou que o próprio corpo se movesse de forma espontânea consigo.
O lábio quente de Zelo sobre o seu, causaram-lhe um doce formigamento, fazendo-a abrir a boca e atacar o lábio inferior do rapaz com os dentes. Zelo arfou de dor e você levou uma das mãos até o pescoço do mesmo, inclinando o rosto para direita e deslizando a língua molhada para dentro de sua boca. Os movimentos de ambos era tímido; você tinha tanta insegurança em tocar no rapaz que a estava beijando, que não percebeu que estava com a outra mão na barra da camisa dele, apertando-a com força.
A língua de Zelo contornava a sua e parecia desenhar o espaço dentro de sua boca. O ambiente nunca lhe parecera insuportavelmente quente, e sua roupa parecia colada ao corpo. Num último movimento, Zelo sugou seu lábio superior e terminou lhe dando selinhos. Sua mente, atordoada e confusa, combinada com aquele sentimento tão grande em seu peito, a fizeram alargar um enorme sorriso e corar; abraçada em Zelo e encarando seus olhos, o viu corar e repousar a testa em sua cabeça. Seus olhos mantinham o foco um no outro.
— Eu gosto de você. — disse a Zelo.
— Eu gosto, gosto muito de você, — ele respondeu-lhe.
[…]
Sua relação com Zelo passou de amigos íntimos a um casalzinho descobrindo como construir um relacionamento. Depois daquele primeiro beijo, seus pensamentos com ele cresceram de um nível impuro para outro extremamente selvagem e pornográfico. Vê-lo lamber a colher com molho e não reparar os movimentos feitos por sua língua era impossível; vê-lo se abanando com a barra da camisa para afastar o calor e não reparar em seu abdômen era torturante; mas tomar banho junto ao mesmo e sentir suas mãos esfregando seu corpo desnudo era o pior dos castigos.
Seu maior desejo de tempos para cá era de ser uma menina mais pura para poder pedir Zelo em namoro, mas por culpa dele mesmo estava viciada em pornografia, depois de ficção científica, claro. Costumava assistir a vídeos eróticos no notebook, trancada no banheiro, e choramingando o fato de ter um pedaço de mau caminho em casa só para ser admirado num pedestal.
— Maldito Zelo, olha o que fez comigo... — lamuriava — Me masturbando no banheiro por causa de um rapaz... Só posso estar maluca!
— , você não tem aula hoje? — Zelo perguntou batendo a porta.
— Ah... Eu... Sim, mas eu vou me atrasar um pouco, nem é importante! — sentiu o corpo gelar por quase ser descoberta — Maldito Zelo, agora me fez brochar pensando em aula... Porcaria de faculdade! — diz se ajeitando para sair do banheiro.
— , quando você voltar nós vamos tomar banho primeiro ou comer? — ele bateu novamente a porta.
— Na hora a gente vê! — você grita irritada.
— , você está “naqueles dias”? Eu posso fazer uma massagem se você estiver com dor... — sua voz demonstrou preocupação.
— Não é nada disso, é que eu estou na seca mesmo! — grita sem pensar — Digo, estão pensando em racionar água no condomínio!
— O que é “estar na seca”?
— Nada com o que você precise se preocupar! Até depois, Zelo! — você sai correndo do banheiro e lhe dá um selinho antes de sair correndo.
[…]
— Entendi! Isso é o que os namorados fazem depois de se beijar! — diz Zelo em voz alta segurando uma revista.
No entardecer daquele dia, após mexer outra vez em suas coisas, Zelo havia encontrado uma playgirl* e a estivera lendo durante a noite; seu sorriso estava estampado no rosto e seus olhinhos brilhavam com as “descobertas” que ele havia feito.
— Zelo? — sua voz ecoou até o quarto — Você está brincando de se esconder? Vem, vamos tomar banho...
— — Zelo correu até a sala pulando sobre você e os derrubando no chão —Bem-vinda, !
— O que... O que está...
— , vamos começar a fazer amor!
— … — sua expressão parecia como um zumbi comendo moscas, você permaneceu chocada com o que ouviu — Porque sinto que isso tem a ver com o meu comentário? Ei, Zelo! Você entende o que está dizendo?
— Entendo sim. Eu serei gentil. — ele respondeu beijando sua mão — Então, você pode me deixar ter cada parte do seu corpo?
— Zelo... — seu rosto estava rubro — Isso é um sonho?
— Não, . Isso é real, eu sou real. — sua expressão fofa parecia ter tornado-se sexy, porém, ele estava ruborizado.
— Hum... — sorri — Olha só, parece que meu lobo mau não percebeu que ele é quem é a vítima aqui... Ah, Zelo... Como eu ansiei por isso!
— — ele a chamou fofo e assustado.
— Vou mostrar a você o que tem me causado de pesadelos, seu menino mau.
Apoiando-se nos cotovelos, inclinou-se para frente e encarou o rosto corado de Zelo. Sorriu, um pouco tensa, e aproximou o rosto até sentir sua respiração falha em seu pescoço. Sentando-se no carpete da sala, deixou que as mãos segurassem a barra da camisa de Zelo e deslizou-as para dentro da mesma, sentindo a fricção da pele do rapaz contra suas carícias. Os pelos eriçaram-se e ele mudou sua expressão, apertando os olhos e mordendo o lábio com força antes de gemer baixinho.
— Você fica fofo até fazendo uma expressão dessas, Zelo... — afundou o rosto na curva do pescoço do rapaz e com uma das mãos, puxou a blusa dele rasgando-a e começou a beijar seu cangote.
— ... — Zelo gemeu.
— O que foi, Zelo? — você voltou o rosto em sua direção.
— Me... Me beija... — choramingou.
— Me mostra onde quer ser beijado. — ele apontou para os lábios — Claro, vou fazer isso depois de terminar aqui...
— Não, ... Me beija... — disse manhoso.
— Pode fazer a manha que quiser, esse aqui é o castigo por me fazer me masturbar no banheiro!
Os lábios pressionam a pele do pescoço delicado, fazendo uma leve pressão e deixando marcas roxas de seus chupões. A cada nova marca, um gemido grave escapava dos lábios de Zelo e ecoava pela sala.
As mãos do rapaz começaram a descer em direção à barra de sua camisa e seguraram-na com força, puxando para cima. Você afastou-se do corpo quase desnudo a sua frente e levantou os braços para cima, sinalizando que Zelo poderia retirá-la, e ele o fez, largando sua camisa em algum canto do cômodo.
Com as mãos longe do corpo dele, aproveitou para tirar de sua vista os trapos que restaram da camisa que você rasgou e sentiu-se um tanto afobada para fazer o que desejasse ali no chão. A calça de moletom do rapaz não dava conta em esconder sua ereção e ele pôs as mãos sobre a mesma, tentando esconder aquela visão de você. O pomo de adão subiu e desceu, revelando sua real situação.
Você levantou-se do chão e puxou Zelo para cima, empurrando-o contra o sofá; o rapaz caiu sentado e com as pernas abertas. Você permaneceu imóvel em sua frente, segurando o cós da calça e suspirando pesado; desde quando era tão difícil respirar?
— Zelo, me ajude a tirar isso. — pediu constrangida e ele desceu o zíper de sua calça, não olhando em seus olhos — Espera, Zelo. Você não precisa fazer isso, eu acho que esse é o mais longe que conseguimos ir.
— Como?
— Você não precisa se esforçar tanto, eu sei que não está se sentindo a vontade, por isso, nós podemos desistir e tentar outra vez.
— Não... — segurou em sua cintura e pressionou-a com delicadeza — É que você é tão bonita que tenho medo em estragar tudo.
— Não, você não vai estragar nada... Estou tão insegura quanto você, olhe só, minhas mãos estão tremendo...
Ao demonstrar o estado em que se encontrava, Zelo abriu um sorriso sincero e repousou a cabeça por entre o pequeno espaço entre os seus seios. Ele continuou com a cabeça recostada ali, enquanto descia suas calças e a deixava somente de roupas íntimas. Não satisfeito, passou o joelho por entre suas pernas, obrigando-a a sentar-se sobre ele no sofá. Suas mãos apoiavam-se nos ombros do rapaz e você levou uma das mãos ao queixo do mesmo, voltando-o para cima, fechou os olhos antes de voltar a atacar os lábios de Zelo.
As mãos inseguras dele, apalpavam-lhe as nádegas e as coxas; de bobo ele não tinha nada. Da mesma forma que você deslizava as mãos pelo abdômen de Zelo, ele brincava com o elástico de sua calcinha, começando a puxá-la para baixo. Você se esforçou em conseguir retirar o sutiã e Zelo puxou-o com a boca, jogando em seu lado direito.
Seus mamilos ao entrarem em contato com o choque térmico enrijecem-se e Zelo, sem perder tempo, a segura pelas costas a empurrando contra ele. Beijos tímidos são distribuídos pela sua pele, até assistir ao rapaz abrir a boca e deslizar a língua coberta de saliva pra lambê-la. Seus olhos se fecham e você pronuncia sons incompreensíveis.
Você encaixa sua intimidade sobre o membro de Zelo, escondido sob o moletom, e realiza movimentos pélvicos de vai e vem, sentindo as mãos dele apertarem suas nádegas com força. Concentrado em sugar seus mamilos, Zelo não percebe quando sua mão desliza para dentro de sua calça e você segura em seu membro fazendo uma pequena pressão.
Estimula Zelo, masturbando-o em ritmo descompassado e sente a calcinha ser puxada até a metade das coxas. Como suas pernas estão afastadas, Zelo sobe com a mão direita pelo lado interno de sua coxa, e encaixa o polegar sobre seu clitóris, massageando-o no mesmo ritmo que você o fazia.
Você sente ele brincar com o dedo médio, deslizando-o para dentro de você; mas, tentando manter a postura e o autocontrole, aperta com força o lábio toda vez que sente ele atingir um ponto sensível seu. Zelo choraminga o fato de você torturá-lo e você coloca a outra mão dentro da calça de moletom, apertando sua virilha.
Depois de algum tempo, ambos sentem necessidade de completar-se e sentir-se por inteiro. Você levanta do colo de Zelo e deixa a calcinha cair ao chão, sobre seus pés. Zelo começa a baixar a calça, ainda sentado, e chuta o que restou da mesma com os pés.
Quando Zelo a deitou no sofá, ficando por cima de si, os olhos de ambos miravam-se com ternura; ao sentir o membro de Zelo entrar em você e ser abraçada por ele, conseguia sentir as batidas de seu coração misturando-se ao barulho dos gemidos abafados e reprimidos que ele soltava em seu ouvido.
O sentimento de insegurança fora embora, levando consigo a tristeza e a solidão. Estavam unidos em corpo e em alma, e em sua mente desejou acima de tudo guardar o momento de quando ainda conseguia ouvi-lo dizer que estariam juntos para sempre. O suor escorria e misturava-se ao gozo e o atrito entre os dois corpos dos jovens amantes.
O momento em que Zelo desfalecera exausto sobre seu corpo e você o aninhava em seu peito, tornaram-se as memórias das quais você clamou a qualquer divindade que fosse, para que nunca lhe fosse arrancado. A fonte de sua felicidade não estivera contida nas estrelas, elas eram apenas a sua preparação para a reviravolta que ocorrera em sua vida, sem um nome, sem um passado ou uma história.
— Zelo... Não me deixe... Eu o amo tanto... — sentindo as pálpebras fecharem-se, entregou-se ao sono.
Ao acordar na manhã seguinte, sentiu-se renovada e bem-disposta, mas não encontrou Zelo dormindo consigo no sofá. O corpo estremeceu e um calafrio correu pela espinha; fora procurar pelo rapaz por todo o apartamento e não encontrara vestígios ao menos de que estivera ali, fora como se tudo tivesse sido um sonho bom. Uma súbita vontade de chorar se alastrou em seu coração e mente, e você deixou-se debulhar em lágrimas sofridas; a imaginação estivera mentindo para você?
— Zelo, onde você está? — perguntou encolhendo-se no chão.
[…]
Passaram-se alguns meses desde o estranho acontecimento. Você andava cabisbaixa e a síndica pareceu aproveitar de sua vulnerabilidade para lhe provocar. Sua vida nunca lhe parecera tão triste e tão monótona. Voltara ao matagal ao qual havia encontrado Zelo; refizera todos os seus passos, mas ainda assim, não conseguia compreender ou aceitar o sumiço do rapaz em sua vida.
Hoje, em particular, passaria o resto do dia se entupindo de sorvete e filmes depressivos, suas olheiras ficaram mais fundas e seu rosto ainda mais abatido. O que Zelo vira de bonita em você?
— Idiota... — resmungou e sentiu as lágrimas se empoçarem nos olhos — Devia ter deixado você morrer no meio do mato!
Ouviu a campainha tocar e secou as lágrimas teimosas que escorriam de seus olhos. Ao abrir a porta, separa-se com a figura de um rapaz alto, bem-vestido e com uma fofura de doer o coração e os olhos. Não era possível.
— Você?
— Ah, desculpe! Sou seu novo vizinho a partir de agora! Por favor aceite isso como um presente pela nossa boa convivência! — estendeu-lhe um embrulho bem feito.
— Certo, obrigada. — respondeu estática. — Vou abrir aqui mesmo tudo bem?
— Sim, faça isso, por favor. — ele timidamente levou a mão ao cabelo, bagunçando-o —Nós já nos vimos antes? Por que seu rosto me parece tão familiar...
— Não, isso é mera coincidência. — respondeu triste.
— Ah, que pena... Mas, eu espero que nos aproximemos .
— Como você... — engoliu em seco ao encontrar um telescópio novo dentro do embrulho e o rapaz sorriu — Está me dizendo que... É você?
— Muito prazer, meu nome é JunHong, mas você pode me chamar de Zelo.
*Playgirl — revista com conteúdos adultos voltadas ao público feminino.