O dia estava quente, o Sol cingia no céu, a luz deste estava tão forte que mesmo sem olharmos para ele o céu ainda fazia nossos olhos doer, estava claro que esse era o primeiro dia, o dia que dava início ao verão e mesmo com Sehun ao meu lado eu conseguia sentir calor, talvez por causa de Samuel, já que ele era uma criança vibrante a alegre.
Senti pena dele.
Logo essa energia dele se esvairia, mas eu sei que por ele ser uma pessoa feliz, ele não se abalaria com o que iria saber mais tarde, porque ele é isso, a felicidade pura, pode ser que por um momento ele deixe essa felicidade cair, mas ele irá se levantar com ela.
Não posso dizer o mesmo de Sehun.
Temo que este ficara mais isolado, mais frio, mais insensível do que já é.
E a melhor forma para ele deixar essa frieza, acabar com essa insensibilidade, é sentir, tenho muitas esperanças de que isso vá acontecer. Tenho muita crença de que quando chegarmos ao cemitério, Sehun ira desabrochar. Caso isso não aconteça, será quase como uma resposta bem clara de que ele não tem mais salvação, eu espero que não, que ele mostre que ainda é uma pessoa com sentimentos.
Eu agora só quero ver ele voltando a ser uma pessoa comum, que ama, sente, se apega, chora, sorri...
Mesmo depois disso tudo, como eu já falara eu quero o bem dele, esse é o certo, desejar bem a todas pessoas, dar uma segunda chance a elas, tentar ajuda-las em vez de crucifica-las e é isso que eu e Roberta estamos tentando fazer colocando Samuel e Sehun em um carro, e indo até a cidade vizinha, onde a mãe de Sehun está enterrada.
Eles dois ainda não sabem que irão visitar a mãe dele. Mas Sehun já sabe que Roberta contou a Samuel que a mãe dele nunca mais irá voltar, porque agora ela já está em outro lugar, e Sehun concordou com isso.
Samuel chorou no dia em que ela contou isso, mas no dia seguinte ele já estava quase recuperado e quando ele finalmente se recuperou ela resolveu deixar ele ao menos uma vez na vida ter a chance de falar com a mãe dele.
No dia em que eu e o Sehun fomos pegos pelo guarda nos beijando dentro da escola, ela me contou que tinha planos de levar eles até o túmulo da mãe deles e me chamou, porque ela sabe que Sehun e Samuel precisariam de mim lá com eles, porque eu sou a única pessoa que posso dar algum tipo de apoio a eles nesse momento, principalmente ao Sehun, já que eu sou a única que ele tem ao menos um pouco de sentimentos bons por mim.
Eu não aceitei apenas porque queria está lá para apoia-los, mas porque eu queria ver Sehun, porque eu tinha esperanças que pelo menos uma vez eu o veria sendo simplesmente um Sehun humano, porque eu sentia que não podia morrer sem ver isso, sabendo que Sehun era uma pessoa fria.
Eu preciso ter certeza que há algo bom e sentimental no coração dele.
Enquanto viajamos posso ver pela expressão que Sehun tem que ele já sabe que o que está por vir vai causar de alguma maneira algo nele, a testa dele está levemente franzida, e ele está mais pensativo do que nunca, vez ou outra ele acaba suspirando fortemente, e olha para Samuel com preocupação, este por outro lado considera essa viagem uma aventura, observa a estrada e todo o verde ao redor dela com olhos curiosos e fascinados, enquanto canta algumas partes das músicas que estão tocando.
Roberta no banco da frente se mantem concentrada apenas no volante, e a expressão dela é suave, tranquila, isso me conforta, me mostra que pode resultar coisas boas dessa ida até lá, eu acabo criando mais confiança a olhando, porque ela está se mantendo forte, e eu tenho que fazer isso também.
Quando os primeiros locais da cidade aparecem sobre nossas vistas Samuel fica mais agitado, Sehun se conforta de outro jeito no banco do carro e respira pesadamente, acabo fazendo o mesmo, respiro, e a ansiedade está presente no ar.
É hoje que iremos ver quem é o Sehun por trás dessa mascara dura, penso, e isso me anima, porém também me deixa mais ansiosa para ver, e para suprir essa ansiedade pego meu celular e vejo se tenho sinal, quando consigo me conectar a internet móvel, vou falar com e Suga, digo a eles que já estamos na cidade, eles me respondem rapidamente e querem saber se Sehun já sabe, respondo que não e me despido deles, porque Roberta resolveu parar em uma lanchonete.
Quando descemos do carro, Samuel corre disparadamente até a porta do local e fica repetindo alegremente que quer torta de maça, Roberta diz que vai comprar se tiver e que é para ele ficar quieto, ele assente e por fim entramos de vez na lanchonete, vamos até uma mesa que esta encostada entre duas paredes e Roberta é a primeira a se sentar, em seguida eu, e Sehun se senta ao meu lado, Samuel acaba se sentando de um lado que ele fica do lado de Sehun e de Roberta ao mesmo tempo.
Escolhemos o que iremos querer e Roberta diz ao atendente, enquanto esperamos prestamos atenção em todas as piadas bobas que Sam conta e fingimos nunca as ter ouvido antes, mesmo já sabendo ela e rimos, até Sehun consegue se distrair um pouco, isso me deixa perplexa, esse poder que Sam tem.
As piadas de Sam se vão assim que a torta que ele pediu chega, junto aos demais pedidos, eu e Roberta nos concentramos em nossos lanches, mas Sehun quase não consome o que ele pediu, não demora muito para Roberta percebe isso, e ela pergunta se ele está se sentindo bem, Sehun não se importa e nem responde, apenas se levanta e sai da lanchonete.
— Assim que você comer, pode ir até lá conversar com ele? — ela pede.
Assenti e fiz o prometido, assim que me alimentei, deixei Roberta e Sam que se divertia comendo a torta dele e fui atrás de Sehun, ele está um pouco longe da onde o carro está estacionado, e um pouco longe da lanchonete, mas eu o alcanço.
— Está tão quente — ele diz sem me olhar — Isso está me sufocando!
Fico quieta esperando mais alguma confissão dele, porém ele não diz mais nada, ele continua a andar sem rumo pelas calçadas da rua, temo que nós acabemos no perdendo, porém continuo o seguindo e me certificando de não mudar de direção e correr o risco de perder a lanchonete de vista.
— Eu preciso de ar — ele murmura.
— Você precisa de calor — eu o advirto.
Ele não dá atenção a minhas palavras, e eu não me importo com isso, sei que ele internamente está travando uma luta contra si mesmo e que ele não pode me dar atenção agora, e também sei que esta cedo demais para começar a exigir atenção dele.
Tenho noção que preciso ser cuidadosa com cada passo que der agora, não posso pressiona-lo se quero tirar essa mascara dele, pois caso eu o pressione, é só questão de tempo até ele perceber minhas intensões e se isolar, voltar a ser totalmente frio.
Continuamos a andar, até que encontramos uma praça próxima ao local, Sehun vai até ela sem hesitar, quando chegamos até esta ele se senta em um banco e deita a cabeça para trás, olha o céu, e possível ver no reflexo dele algumas nuvens e o céu em si borrado. Me sentou ao lado dele e também olho para cima, ficamos assim por um tempo, porém logo volto a olhar para frente já que meu pescoço começa a doer, mas ele continua, ignora qualquer dor física e continua fitando o céu.
— O céu estava limpo assim — Sehun comenta — No dia em que minha vó morreu.
Fico quieta porquê dessa vez tenho certeza que logo ele irá dizer mais coisas, e não quero acabar desviando o assunto ao dizer qualquer palavra.
— Eu sai do hospital quando recebi a notícia e andei sem rumo por todas as ruas que apareciam a minha frente — ele prossegue — Andei e andei, parei algumas vezes para descansar e voltei a andar, sempre olhava para o céu, até que a noite veio.
Ele abaixa a cabeça dele e segue meu olhar que para sobre uma arvore onde alguns pássaros a rodeiam, de canto consigo perceber ele sorrindo levemente e girando a cabeça para tentar aliviar a dor do pescoço.
— Quando a noite veio, ficou frio outra vez — ele continuou — e então voltei para minha casa... Já sem angustia nenhuma, apenas com um sentimento, culpa.
— Por quê? — acabei perguntando.
— Por não estar sentindo quase nada — ele sussurra e para por longos segundos — Eu não quero que isso aconteça outra vez.
“Não ira” eu sussurro, mas o som não sai dos meus lábios, ele não escuta.
Ficamos por alguns minutos em silencio, apenas observando o movimento da praça até que Sehun se levanta e começar a se dirigir para a lanchonete novamente, eu o sigo e então algo inesperado acontece, ele segura minha mão e não a solta até chegarmos ao carro de Roberta.
Não demora para Roberta e Samuel saírem da lanchonete e quando eles saem já voltamos imediatamente para dentro do carro, dessa vez Samuel convence Roberta a deixa-lo ir na frente.
Dessa vez Samuel não canta, ele dá toda a atenção dele para a cidade que vai surgindo através da janela do carro, diferente da nossa cidade está tem mais prédios e as ruas são mais movimentadas, fica claro que Sehun não gostaria de viver em uma cidade assim, ele já não suporta muito o movimento pequeno que tem na nossa cidade, o dessa ele odiaria.
Cada segundo que vai passando dentro do carro posso sentir Sehun se controlando, tentando se manter equilibrado e fica claro que ele não está conseguindo, isso acaba me contagiando e me deixa mais nervosa meu estomago se contorce como efeito da ansiedade.
Por fim chegamos ao local, o cemitério, este tem uma aparência antiga e em quase todos os túmulos é possível ver algum tipo de flor em cima, há pouquíssimas pessoas visitando seus entes amados, contando com nós ali não passa de umas dezesseis, uma mulher a nossa esquerda está quase sentada no chão e chora enquanto percorre as mãos pela lapide, eu não consigo manter o olhar sobre ela por muito tempo, mas Sehun a encara quase sem nenhum remorso.
Roberta se move para uma direção que ela já conhece e nos guia até onde encontraremos os restos, do que um dia fora a mãe de Sehun e Samuel, a sete palmos de terra.
— O que estamos fazendo aqui? — Sam pergunta destruindo o silencio torturante que nos rodeia.
Roberta se vira para nós e caminha até Sam, ela se inclina e afaga o cabelo dele em seguida a bochecha, depois ela respira fundo e começa a explicar.
— Eu trouxe você e o Sehun aqui para se despedirem da sua mãe... — ela fala gentilmente.
— Eu não quero me despedir dela — Sam diz — Eu ainda acredito que ela vai voltar.
As palavras de Sam afetam mais Sehun que a própria Roberta, ele não consegue se controlar e acaba deixando a expressão dele rígida, posso pressentir que se algo acontecer com Sam isso também afetara Sehun.
— Você tem que fazer isso — Sehun fala antes que Roberta consiga pensar em alguma estratégia — Você não quer deixa-la chateada né?
Sam balança a cabeça negativamente, Sehun tendo a resposta levanta a mão esperando Sam segura-la quando este faz isso, Sehun olha confiante para Roberta e indica para ela leva-los até lá.
Quando chegamos os olhos de Sehun não vão apenas para a lápide da mãe dele, mas também para a lapide que está ao lado, levo um tempo para entender que a lápide ao lado é da avó dele.
Os momentos que sucedem passam a ser pura magia.
Sam ignora e solta a mão Sehun, se concentra apenas na lápide da mãe dele.
Sehun ainda processando tudo fica dividido entre a lápide da mãe e da avó dele, ainda indeciso ele acaba caindo de joelhos diante elas, eu consigo me aproximar apenas um pouco antes de Roberta me segurar, mas este pouco e o suficiente para ver que os olhos de Sehun estão marejados.
— Então foi para cá que vocês a trouxeram — ele afirma.
Roberta confirma.
— Para o lado da filha dela — a voz dele sai baixa.
— Sim, apesar de a sua mãe ter feito o que fez, sua vó ainda a amava, sua mãe ainda era filha dela — Roberta comenta — Alias a última vez em que eu conversei com sua mãe, ela disse que te amava, não só a você como o Sam, e que sentia saudade.
— Eu também... — ele fala — eu também te amo e sinto sua falta mãe.
As lagrimas começam a percorrer pelas bochechas dele, isso faz com Sam chore também e vá para os braços de Sehun que o acolhe, ambos acabam se reconfortando da maneira que podem enquanto olham para a lápide da pessoa que deu vida a eles.
Eu tenho que me controlar para não ir até os dois e abraça-los, tento pôr na minha mente que aquele é um momento apenas dos dois, e não só isso como aproveito para gravar muito bem cada segundo desse dia, o dia que Sehun chorou, deixou o gelo que havia dentro dele se derreter.
O dia em que Sehun cedeu todo o espaço para o verão.
E também o dia que consegui definir por mim mesma o que era inferno.
Inferno não é algo que dura para sempre, ele esteve aqui por um tempo e depois se foi assim como o inverno que durara por muito tempo dentro de Sehun, e este tem uma grande tarefa a ser feita.
Inferno não é um lugar, não é simplesmente dor, sofrimento e ódio, o que eu conheci era um ser tendo que lidar com seus próprios demônios e sombras e que mesmo assim não deixou de fazer o que ele deveria fazer, me punir e me ensinar.
E agora que ele se foi, eu consigo ver o paraíso florindo, consigo ver um garoto atormentado se tornando um menino comum.
Sim, agora eu posso ver quem é realmente Oh Sehun por trás de toda essa máscara de gelo.
E posso afirmar que ver ele é mais bonito que observar as mais belas paisagens espalhadas por toda essa imensidão do mundo. FIQUEM COM ESSE GIF DO SEHUN SENDO

