SeungYoun: Você e os outros


Peculiaridade. Assim você definiria aquele rapaz de sorriso fácil e de mente perturbada. Não que ele tivesse problemas demais, afinal, problemas todos tem, e você sabia disso melhor do que ninguém.
Enquanto você o observava se mover delicadamente de lá para cá e de cá para lá, tentava entender em que momento o universo cuidara de criar alguém tão estranhamente bobo e idiota.
Os olhos dele passaram rapidamente sobre os seus e você desviou o olhar, sentindo sua pele formigar.
— Às vezes eu queria que você me olhasse como olha para ele... — a voz suave falou ao seu lado, fazendo você corar mais ainda.
— Do que você está falando? — Você perguntou, dando leves tapinhas em seu rosto para afastar a quentura ali presente.
— Você acha que eu nunca percebo os olhares que você dá para o Yibo quando passamos a tarde aqui "estudando”, não é? — Seu olhar desviou do chão para o rosto ao seu lado.
Seungyoun, seu namorado para todos os efeitos, te olhava daquele jeito perfeitamente gostoso que só ele sabia olhar.
— Eu não olho para ele — tentou negar, mas seu rosto ardendo em chamas negava o contrário.
— Ok então, vamos fingir que é apenas coisa da minha cabeça e que você vem aqui apenas com a desculpa de podermos ficar mais próximos — Seung deu de ombros e voltou a se concentrar no livro, te ignorando por completo.
Sabia o quanto ele estava chateado, e isso em certa parte também te deixava para baixo. Eram namorados há quatro meses, mas tinham uma condição um tanto quanto "especial" no namoro. Você o amava, e sabia que era recíproco, mas você tinha o leve defeito de sempre paquerar homens onde quer que vocês fossem.
E o que antes era um total estresse para seu namorado, agora já era algo que ele havia se acostumado e até mesmo ignorava. Você não fazia por mal, apenas se sentia na obrigação de elogiar aquilo que havia de bom no mundo. E outra, você tinha a consciência limpa de que realmente amava Seungyoun, sabia que não o trocaria por nenhum desses caras que seus olhos insistiam em admirar. A sua única preocupação era que chegasse um dia em que ele não aguentasse mais, e por estupidez sua, decidisse dar um ponto final nessa história toda.
Não conseguia se imaginar sem os abraços que vocês davam no caminho para casa nas noites de frio. Não conseguia ficar sem os beijos trocados escondidos na faculdade, aqueles beijos que arrepiavam os pelinhos da sua nuca. E muito menos conseguia se ver longe das viagens para os lugares nos fins de semanas, das feiras exóticas que iam nos feriados, dos acampamentos que frequentavam no fim de ano.
Seungyoun era parte de você e não poderia ficar sem ele.
Mas então havia aparecido aquele garoto de sorriso fechado e olhos sedutores. Era um novo atendente do café que você e Seungyoun costumavam ir para estudar. Descobriu depois de um tempo que seu nome era Yibo, ou pelo menos era assim que todos o chamavam. O nome completo do loiro era uma completa incógnita, todos o chamavam apenas de Yibo.
Pelo que você ficou sabendo também, ele estava no primeiro semestre de engenharia mecânica, e arranjara o emprego no café da própria faculdade para conseguir pagar a mensalidade do quarto, já que ele havia ganho a bolsa cem por cento.
E você descobriu isso graças ao melhor amigo de Seung, um tal de YiXuan. Não conhecia muito bem os amigos do seu namorado.
O fato era que Yibo havia a atraído bem mais do que esperava, e suas idas ao café haviam ganho um outro propósito, não mais apenas para estudar, e sim para admirar aquele ser de cabeleira loira se movendo enquanto anotava os pedidos.
Estava tão distraída que não reparou quando uma sombra se fez presente na sua frente. Ergueu a cabeça devagar, e viu aqueles mesmo olhos de minutos atrás.
— Bom dia — ele sorriu de lado, olhando fixamente em seus olhos, como se seu namorado fosse apenas um qualquer ali — Já fez seu pedido?
Abriu a boca chocada demais para conseguir dizer qualquer coisa coerente e olhou para o lado, vendo Seungyoun dividir seu olhar entre você e Yibo.
— Eu... — você desviou seu olhar do seu namorado para o loiro — Eu estou bem, obrigado — sorriu desconcertada.
— Qualquer coisa que precisar — ele tirou um papelzinho do bolso e colocou na sua mão — É só pedir — foi quase imperceptível, mas antes dele partir, pôde ver que seus olhos piscaram rapidamente para si.
Ainda boquiaberta, sentiu o papel em sua mão e abaixou seus olhos para fita-lo. O abriu cuidadosamente e viu lá um número de telefone e um coraçãozinho. Sentiu Seung se inclinar para olhar e o olhou rapidamente.
— Boa sorte — ele falou, enquanto recolhia as próprias coisas.
— Seung... — tentou segurar o braço do seu namorado, mas ele se livrou do toque — Seung, fica, por favor...
— Depois nos falamos — ele jogou a mochila nos ombros e beijou sua testa antes de sair. Nada de beijo no canto da boca ou um selinho escancarado, foi apenas um maldito e destruidor beijo na testa.
Seungyoun saiu cabisbaixo, passando pela saída quase que se arrastando. Você sentiu seu estômago embrulhar e sua vista embaçar por conta das lágrimas que insistiam em querer sair.
E quando seus olhos se levantaram, mesmo sobre todas aquelas lágrimas, pode ver Yibo sorrindo vitorioso.

● ● ●

— Anda logo ou eu vou contar para sua namorada que você saiu sexta— feira passada quando disse que estava em casa dormindo! — Você falou e cutucou mais uma vez o rapaz jogado na poltrona.
— Caramba, você é chata, hein — ele resmungou, sem sequer mover um músculo do assento — Para que você quer tanto que eu vá no maldito de um shopping?
Você respirou fundo e se jogou no outro sofá, afundando os dedos entre os fios dos seus próprios cabelos. Tivera essa ideia durante todas as noites em que não conseguira dormir desde que aquilo no café acontecera.
Fazia uma semana que Yibo havia lascado com seu relacionamento. E fazia uma semana que você e Seungyoun quase nem se falavam direito. Se viam nos corredores da faculdade, ele lhe cumprimentava com um beijo na testa, e em seguida saía andando alegando estar atolado de serviço para fazer.
Era como se fossem apenas amigos, mas ele continuava usando a aliança, então vocês ainda eram namorados. Mas não havia mais beijos, não havia mais abraços, não havia mais mensagens até altas horas da madrugada. Não havia mais um todo, haviam duas metades. Você e ele. Separados.
E tudo isso vinha tirando seu sono durante a noite, te impedindo de ter mais do que duas horas de sono. E então havia tido aquela ideia na sua cabeça.
— Eu fiz merda — confessou ainda puxando os fios de seu cabelo.
— Isso todo mundo sabe — YiXuan sorriu travesso — Você e o Younnie eram quase carne unha, e agora parecem dois estranhos.
— Eu preciso concertar isso... — fechou os olhos controlando aquela vontade de chorar que vinha todas as vezes que pensava no quanto havia sido idiota.
— E por que precisa da minha ajuda para isso? — Ele perguntou ainda visivelmente confuso.
— Porque você é o melhor amigo dele, ninguém melhor do que você para saber o que ele vai gostar ou não — abriu seus olhos e fitou o rapaz na poltrona, que te olhava fixamente, pensando no que falar.
Foi surpreendida quando ele levantou e parou na sua frente.
— Eu só vou te ajudar porque estou cansado de ficar o dia todo sentado — você levantou automaticamente, feliz pelo rapaz ter aceitado — E também porque eu não aguento mais o Younnie ouvindo aquelas músicas depressivas no meu ouvido.
— Aaaah YiXuan — você se jogou nos braços do rapaz, o esmagando num abraço — Se eu não fosse apaixonada por ele e você não namorasse eu juro que te dava um beijo agora!
— Se eu não namorasse e nem você, eu me manteria a quilômetros de uma doida que nem você — seus ouvidos automaticamente ignoraram o comentário do rapaz, e você o puxou pelo braço para fora da sala de estar da faculdade.
— Eu pretendo comprar algo grandioso para ele, para ele ver o quanto eu o amo e quero o fazer feliz — você falava para si mesma, enquanto o puxava rapidamente pelas escadas que levariam para fora da faculdade.
— E você tem dinheiro para isso tudo? — YiXuan perguntou, se deixando ser levado por você.
— Não, mas eu dou meu jeito — você mordeu o lábio, sorrindo internamente.
Se você tivesse olhos nas costas com certeza teria visto Yixuan revirar os olhos.
[...]
— Eu vou enlouquecer — resmungou se jogando na cadeira ao lado de Yixuan.
— Faz quatro horas que estamos andando e você ainda não decidiu nada... — o rapaz falou enquanto fazia uma careta — Se decida logo, mulher!
— É fácil falar, ne? Não foi você que estragou seu relacionamento com uma coisa que você sequer fez...
— Eu já briguei várias vezes com a minha namorada, em todas elas era sempre eu que ia e pedia desculpas — YiXuan olhou distraído para a praça de alimentação atrás de vocês.
— E como vocês se desculpavam? — você perguntou interessada, virando para o rapaz.
— Bom, algumas vezes eu comprei chocolate pra ela — ele sorriu e te olhou — Nas outras eu chamei ela para ir lá em casa quando não havia ninguém, se é que você me entende...
— Aish, seu pervertido! — YiXuan desviou do sei tapa antes que o acertasse — Isso não vai funcionar comigo e com o Seung... Não somos esse tipo de casal.
Sua voz foi ficando fina até que você falasse quase num sussurro. Abaixou a cabeça controlando a vontade de chorar.
— Tente dar para ele algo que ele goste então — YiXuan falou, percebendo sua tristeza.
— Ele gosta de futebol, mas ele já tem bolas autografadas demais — seus olhos se ergueram, ainda marejados.
— Ele também gosta de viagens...
— Estamos no meio de um monte de provas, não posso tira-lo daqui para perder essas provas... — suspirou frustrada e olhou para frente.
Tinha ali uma loja com vários artigos. Desde cartões de aniversário, até perfumes.
— Então o surpreenda — YiXuan falou sorrindo, olhando para a mesma loja que você.
Vocês dois se entreolharam, sorriram e levantaram ao mesmo tempo, entrando naquela loja que parecia ser a salvação de vocês.

● ● ●

— Vai dar tudo certo, é só ficar calma — você falava consigo mesma enquanto garantia que tudo estava no seu devido lugar.
Precisava deixar tudo perfeito para não decepcionar SeungYoun quando ele chegasse.
— Se você ficar nervosa aí é que nada vai dar certo mesmo — conferiu uma última vez e parou na posição que ficaria quando ele abrisse a porta, ao lado do sofá.
Olhou uma última vez, e dessa vez certeza, para tudo e respirou fundo. Havia colocado seu melhor vestido para não decepciona— lo, passara uma leve maquiagem nos olhos e arrumado seu cabelo para que ele não ficasse tão liso.
Estava orgulhosa de si mesma, mas ainda assim estava receosa. YiXuan havia lhe garantido que até ele ficaria emocionado se recebesse uma surpresa daquela, mas algo em seu estômago insistia em tentar lhe dizer que era o contrário.
Ouviu o leve ranger da porta e sentiu o sangue gelar dentro de suas veias. Parou estática ao vê-lo entrar pela porta, os cabelos grudando um pouco na testa, e o uniforme do futebol ainda no corpo. Ele a olhou de cima a baixo confuso e depois encostou a porta.
— Aconteceu alguma coisa? — Ele perguntou desconfiado.
— Eu... — todo o discurso que você tinha planejado simplesmente se foi ao vê-lo ali na sua frente.
Se tocou do quanto o amava. O amava mais do que gostava de admirar as folhas caindo no outono. O amava mais do que ficar deitada vendo filmes que não tinham sentido nenhum, mas ainda assim relaxavam sua mente. O amava mais do que gostava de cogumelos no yakisoba de frango. O amava mais do que conseguia imaginar, e isso acabava consigo.
— E então? — Ele perguntou e você sentiu uma lágrima escorrer do seu olho direito.
— Eu te amo — foi a única coisa que conseguiu dizer antes de se encolher, uma crise de choro aguda começando a sair de sua garganta.
Ele se aproximou rapidamente, a envolvendo com aquele abraço quente, sem se importar se iria lhe deixar fedendo, se iria bagunçar sua roupa toda arrumada ou seu cabelo muito bem caprichado. Ele apenas lhe abraçou, para lhe deixar com a certeza maior ainda de que não havia lugar nenhum melhor no mundo.
— Não precisa chorar, eu estou aqui — ele falava enquanto alisava seus cabelos, ainda te mantendo perto dele — Eu não iria a lugar nenhum sem você...
— Me desculpa, me desculpa, eu fui uma idiota durante esses quatro meses, uma idiota que não soube dar valor aquilo que tinha. Uma idiota que não podia ver outro homem na frente dela que não se importava em paquera-lo, mesmo que fosse na sua frente — você confessou, se afastando dos braços dele — Eu não consigo nem imaginar o quanto eu devo ter feito você sofrer... Eu sou tão estupida...
Afundou seu rosto entre as mãos, chorando mais ainda. Sentiu os braços dele lhe rodearem mais uma vez.
— Ei — ele falou baixinho e você balançou a cabeça negando — Ei, princesa, olha para mim — negou mais uma vez, e então ele delicadamente colocou a mão no seu queixo e puxou seu rosto para olha-lo — Você nunca me fez sofrer, acredite em mim — ele sorriu leve e você mordeu o lábio — Eu te amo mais que tudo, e sei que você também me ama. E por mais que me irrite ver você tão derretida por outros caras, eu simplesmente fico todo idiota quando você fala que me ama, quando você toca minha mão quando estamos andando, quando você sussurra no meu ouvido o quanto é feliz ao meu lado. E posso parecer um pouco precipitado, mas eu sei que você quer ser feliz ao meu lado, e não ao lado de nenhum deles. Eu sei que você quer a mim.
Você não conseguiu evitar sorrir, olhando para os olhos de Seungyoun, que lhe fitavam intensamente. Ele aproximou o rosto dele do seu e tocou seus lábios levemente, apenas um selar demorado.
— Eu te amo — voltou a repetir, o abraçando com força.
— Eu também te amo, princesa — ele sorriu e olhou para os presentes no sofá — Eu sinceramente não quero nenhum deles.
— Mas por que? — Você falou chateada, havia lutado tanto para achar o presente perfeito...
— Porque o maior presente os céus já me deram, que foi você...
O sorriso que tomou seu rosto foi tão grande que você não conseguiu evitar beija-lo, e dessa vez um beijo de verdade. Um beijo de reconciliação. Um beijo de amor.

● ● ●

Seungyoun caminhava pelo corredor dos dormitórios masculinos com um sorriso esplendido no rosto. Entrou no seu dormitório e viu YiXuan sentado no sofá, todo largado. Ao lado dele, Yibo jogava concentrado algum jogo qualquer no Xbox.
Ao ouvirem o barulho da porta, os dois no sofá se viraram para olhar. Yibo pausou o jogo automaticamente.
— E aí? — O loiro perguntou ansioso.
Seungyoun encostou a porta e sorriu. Caminhou até o outro sofá e sentou, passando a mão pelos cabelos.
— Para de fazer suspense, cara, fala logo — YiXuan falou impaciente, sentando corretamente no sofá.
— Aqueles presentes eram realmente fofos, como você disse — Seung falou sorrindo para YiXuan — Mas eu gostei.
— Você não sabe o quanto foi difícil leva-la para a loja certa... — YiXuan sorriu satisfeito.
— E você merece o Oscar pela atuação, Yibo — Seung falou orgulhoso e sorriu para o amigo — Você fingir que estava interessado nela e deixar aquele número falso salvou meu relacionamento, cara!
— É para isso que os amigos servem! — Yibo sorriu e inflou as bochechas — Quando você chegou me procurando pedindo para que eu o ajudasse nisso tudo eu pensei seriamente em recusar, mas agora vendo você assim todo feliz dá até orgulho.
— Então quer dizer que a partir de agora ela vai parar de olhar para outros caras? — YiXuan perguntou.
— Isso vai levar um pouco mais de tempo, mas pelo menos consegui fazer ela perceber que eu sou a pessoa que ela precisa — Seung falou e deitou a cabeça no encosto do sofá.
Fechou os olhos sorrindo. Nunca pensou que enganaria a própria namorada colocando seus dois amigos no meio dessa jogada. Mas até que ficara satisfeito.