War of Hormone: Capítulo 8


          Com o punhado de informações e acontecimentos daquele dia, dormir de noite foi uma tarefa difícil. Passei noite toda em claro. Aquela noite foi bem do tipo em que eu fico pensando no que aconteceu durante o dia, me arrependendo e pensando no que deveria ter feito, e entre um desvaneio desse e outro, eu descobri porque Sehun me odeia, ou melhor, me lembrei.
Consegui chegar nessa lembrança presa na minha memória enquanto me recordava das vezes em que eu me arrependi de ter desobedecido e feito algo ruim e ganhado uma punição por isso, assim como acontecera quando inventei de investigar Sehun e ele descobrira, eu estava profundamente arrependida de ter feito isso, mesmo que este ainda não tivesse me punido, eu acho que Sehun não é do tipo que deixa coisas assim passarem quieto, na verdade eu tenho certeza, Sehun não o tipo de pessoa que deixa barato, e ser subornada dele é a prova disto. Ele está praticando uma punição, é isso, ele está me punindo por ter sido uma pessoa má, só pode ser isso, não existe mais outra possibilidade ou motivo para ele estar fazendo todas essas coisas.
Eu estou sendo punida por algo ruim que fiz na terceira série, naquela época, eu achei que uma advertência tinha sido a punição por aquela coisa ruim que eu fiz, mas parando para pensar, uma advertência não iria apagar esse algo ruim da memória de um garoto de oito anos com dificuldades para se enturmar, se comunicar e até mesmo falar, para ele esse algo — que para os adultos e até para mim mesma naquela idade era algo tão insignificante de fácil superação e esquecimento — foi uma daquelas coisas ruins que acontece com você durante sua infância e você nunca esquece, como por exemplo, a vez em que eu cai da arvore e quebrei meu braço e aquele incidente é lembrado até hoje pelos meus pais e minha família, não é algo que se esqueça, aliás você vai estar sempre se lembrando e contando para alguém que quando você era criança algum incidente aconteceu com você. A menos que você seja o Sehun, pois se for, você não ira contar, mas descontar em alguém isto e no caso este alguém era justamente eu, a pessoa que fez isso com ele.
Ainda estudávamos de manhã, já que éramos da terceira série, e na minha escola as classe da primeira até a quinta série ficam no horário matutino e os alunos da sexta e adiante ficam no horário vespertino, já o horário noturno é reservado para os mais velhos. Naquela época eu já era amiga da e da , mas não era tão próxima delas na escola, eu andava mais com uma garota  ruiva e com sardas por toda a parte do rosto, bem maior que as demais crianças dela e que por onde passava as demais crianças abaixavam a cabeça e não a encarava de jeito nenhum, essa menina assustava a todos, menos a mim, e se tinha alguém que assustava mais que ela naquela época, este alguém era eu, tudo por causa de um incidente que tive na segunda série onde um menino saiu com o nariz sangrando dizendo que eu tinha feito isto quando na verdade ele havia apenas escorregado no próprio pé e batido o nariz na parede, mas para não parecer tão constrangedor assim ele mentiu, falou que eu tinha batido nele, de certa forma com isso as crianças passaram a não me encarar e confrontar. E foi justamente esta história que fez a garota se aliar a mim, seriamos uma dupla perfeita, duas garotas que todos tem medo. 
E duas garotas terrivelmente assustadoras andando juntas, não se podia esperar nada bom. E nós fazíamos jus a isso, algumas vezes escondíamos algum brinquedo ou material de alguma criança, outras vezes amarrávamos os cadarços delas as carteiras ou mesas, às vezes apenas começava as perseguir e isso era já era o suficiente para aterroriza-las. No entanto, todas essas crianças tinham algo que nos incomodava, ou já fizeram algo para nós, desde um cochicho ou olhar estranho, até mesmo uma ofensa feita nos anos anteriores, todas, sem exceção fizeram alguma coisa, crianças que nunca apareceram no nosso caminho estavam fora de nossa mira, ou melhor, eu pensava que era sim, já a Pamela — a garota que só era menos assustadora que eu — não pensava assim, ou pensava, porém decidiu mudar as regras e incluir na mira dela crianças que até mesmo passavam perto dela, eu fui levada a adotar essa nova regra, e uma dessas crianças foi Sehun, um garoto bastante inofensivo, naquela época.
Tudo isso aconteceu porque justamente no momento em que eu e a Pamela estávamos no banheiro, na penúltima aula, nos verificando de que uma de nossas vítimas não havia encontrado o brinquedo dela que havia escondido na primeira aula no banheiro feminino, e não só por isso, mas também porque o banheiro feminino na penúltima e última aula já estava reservado apenas para mim e Pamela, as demais meninas evitavam entrar neste durante a última aula simplesmente por saber que eu e a Pamela estaríamos lá esperando alguma garota tentando nos confrontar entrando no banheiro durante aquele horário, e nós esperávamos uma garota, não Sehun.
Quando escutamos os passos dentro do corredor do banheiro, nós já estávamos prontas para espirrar agua do vaso com uma arminha de brinquedo que pegamos de outra vítima no dia anterior, mas a imagem de um garoto no banheiro feminino nos deixou meio confusa. Não havia regras para garotos que tentasse nos confrontar entrando no banheiro, por isso, por alguns segundos ficamos imóveis sem saber o que fazer, enquanto o menino nos olhava com pânico.
— Como você ousa entrar no banheiro feminino sabendo que estamos aqui? — Pamela perguntou assim que abaixou a arma de atirar agua.
Sehun ficou calado, e não podíamos saber se era por estar em pânico com a nossa presença, ou por ele quase nunca falar como de costume ou por ele não ter imaginado que estava entrando no banheiro feminino, mas o ponto era que ele estava em pânico e isso o fez perder a voz, e se tinha uma coisa que a Pamela adorava era aterrorizar crianças indefesas e em pânico. E uma coisa que ela odiava, era quando ela perguntava algo mais de três vezes e a pessoa não respondia, assim como Sehun fez.
— Você vai pagar por isso — Pamela foi para cima dele.
Ele ficou entorpecido apenas a encarando se aproximando dele, as pernas dele devem que não obedeciam ao comando da mente dele, ele estava totalmente tomado pelo medo e só quando Pamela segurou ele pelos braços e o imobilizou prendendo os braços dele para trás ele conseguiu proferir uma reação, uma reação tão frágil quanto a aparência dele, apenas um gemido baixo e rouco.
— Me ajude a levar ele para o box — Pamela falou.
— O que você vai fazer? — eu perguntei temerosa.
Apesar de a minha imagem ser mais assustadora que a de Pamela, ela era mais cruel e às vezes pensava em fazer coisas horrendas e graves contra crianças, que na maioria das vezes eu conseguia impedi-la de fazer e o convencê-la de fazer algo menos ruim dizendo que seria mais assustador fazer aquilo a fazer o que ela tinha em mente.
Mas naquele dia eu não tinha plano nenhum, eu estava desnorteada demais por um menino tão frágil e quieto que nunca se intrometera no meu caminho, estar sendo uma de nossas vítimas, no meu interior eu sabia que aquilo não estava certo, mas a menos que eu me rebelasse contra Pamela eu teria que fazer algo ruim para ele também.
— Vou fazer ele beber agua da privada — ela respondeu.
Sehun acabou soltando mais um gemido apavorado.
Pamela percebeu que eu não iria me mover e começou a empurra-lo até o box. Senti raiva nessa hora, porque ele nem ao menos tentava se defender? As outras crianças pelo menos fariam isto, mas ele estava simplesmente deixando ela vencer. E vendo isso tentei colocar na minha cabeça que crianças fracas precisam aprender a serem fortes, e fui ajuda-la. Se ele não estava nem ao menos relutando era porque ele era fraco e precisa passar por coisas ruins para supera-las e ficar forte.
Mas quando Pamela já estava o fazendo abaixar o rosto até o vaso sanitário, eu consegui ter uma daquelas ideias menos cruéis que eu fazia parecer ser mais cruel que o que ela tinha mente. Ou pelo menos eu achei que essa ideia fosse ser menos pior, mas agora acredito que tenha sido quase no mesmo nível da dela.
— Não, não vamos fazer ele beber agua do vaso não — falei.
— Então o que? — Pamela parou força-lo a abaixar a cabeça até o vaso.
— Vamos fazer algo pior, trancar ele aqui no banheiro — contei a minha ideia.
— É, é uma boa ideia — Pamela o soltou e saiu de dentro do box fechando a porta — Você fique ai menino! Pegue nossas bolsas em cima da pia .
E assim fiz, peguei nossas mochilas e me dirigi para a porta de entrada e saída do banheiro feminino, era ela que iriamos trancar, e Pamela já estava fora do banheiro com a chave deste na mão me esperando sair, quando coloquei os pés para fora ela fechou a porta e a trancou.
— Menino tolo, nem ao menos tentou se defender — ela murmurou — Odeio crianças assim.
Fiquei quieta, eu já estava ocupada demais pensando se deveria ou não mais tarde quando ela estivesse despercebida abrir a porta e soltar Sehun. Eu já tinha noção que ele era uma criança calada demais, bem daquele tipo de crianças que ficam mudas quando o professor pergunta algo para eles, ou se coram toda ao falar com alguém, isso quando fala.
— Vou jogar a chave na grama, assim fica mais difícil de ele escapar — Pamela falou.
E ai que eu percebi que a minha ideia não tinha sido nada bonzinho demais, tinha sido muito cruel. E por causa disso um garoto frágil, tímido e indefeso estava trancado no banheiro feminino no qual a chave destes agora estava escondida entre a grama.
— Vamos voltar para a sala — Pamela falou.
Quando fomos para a sala à professora estava ausente. Supus que ela apenas tinha ido pegar algum material e já estava voltando, mas quando esta voltou estava acompanhada de uma senhora que ficou parada na porta da sala e quanto à professora olhava para a turma procurando algo.
— Sehun sua avó esta te esperando — a professora falou ainda sem se dar conta que Sehun não estava na sala, porque naquele justo momento ele estava trancado no banheiro feminino por minha culpa.
Eu tive vontade de levantar a minha mão e dizer que eu e a Pamela havíamos trancado ele no banheiro, mas por ser a professora de matemática, a professora Rosana, ela não iria ser gentil comigo como a professora de Historia, professora Cássia, que nos perdoava quando fazíamos algo muito ruim e sempre estava a ouvidos para alguma confissão e desculpa. A professora Rosana iria me mandar para a direção e chamar meus pais, a professora Cássia tentaria resolver isso da melhor maneira. Mas como não era ela ali, eu fiquei calada.
— Sehun não está na sala já vai fazer uns quinze minutos professora Rosana — falou.
— Você sabe onde ele foi? — a professora franziu a testa.
— Não — ela respondeu.
A professora Rosana automaticamente pareceu imaginar que algo ruim estava acontecendo, porque ela conhecia muito bem seus alunos, Sehun não era do tipo de ficar enrolando fora da sala, na verdade, Sehun nunca saia da classe a menos que fosse mandado ou alguém o viesse buscar. Todos os alunos sabiam disso. E foi a professora esboçar uma expressão de preocupação que os demais alunos perceberam que algo podia estar acontecendo, e de fato estava, por minha culpa. Minha culpa...
A professora foi até a senhora na porta e falou algo que eu acredito que tenha sido algo relacionado a procurar Sehun pela escola, e assim começou todo o caos, um tempo depois ela voltou acompanhada da diretora e a senhora outra vez, a diretora perguntou se ninguém o tinha o visto e falou que se nos soubéssemos de alguma coisa era para contar agora. E eu por medo não contei.
Meu interior começou a se remoer, eu sabia que eu estava muito ferrada, mas acreditava que se eu contasse eu iria me ferrar mais ainda, mas agora vejo que se eu tivesse contado naquela hora teria sido menos pior, pois a diretora não teria chamado a polícia e nos obrigado a ficar até mais de quinze minutos após o horário de saída, que foi o momento em que a diretora entrou na sala e chamou por mim e pela Pamela.
Minhas pernas quase não conseguiram se mover, e já temendo por minha vida segui a diretora até aquela sala que eu já estava mais que familiarizada, a direção, quando entrei nesta, Sehun estava sentado sobre uma cadeira ao lado da senhora, algumas lagrimas escorriam pelo rosto dele e a senhora o olhava preocupada.
Quando entramos a senhora deu um breve olhar para mim e para Pamela e voltou a observar Sehun, considerei isso algo bom, seria melhor ela ficar olhando para ele, que me encarando com um olhar assassino diferente dos pais de algumas outras vítimas nossas.
— Aqui beba um pouco Sehun — a orientadora entregou um copo de agua para o Sehun, este pegou o copo, mas apenas deu um pequeno gole, acho que aquela quantia era apenas o suficiente para molhar os lábios dele.
— Você pode remarcar a consulta com a psicóloga? — a diretora perguntou para a senhora.
Naquela época esse assunto pouco me interessava, mas vendo agora, isso seria uma informação e tanto, Sehun tinha que ir ao psicólogo e isso é algo bastante anormal entre as crianças da nossa idade naquela época.
— Ah sim — a senhora respondeu — É a psicóloga que você me recomendou, Sehun se dá muito bem com ela...
— Fico feliz que eu tenha acertado, mas a maioria das vezes em que temos problemas com alunos, desde familiares até na escola sempre encaminho eles para ela — a diretora respondeu em um enorme sorriso, mas este logo se desfez quando encontrou meu olhar — os pais de vocês já estão vindo aqui.  
E o resto dessa confusão não preciso nem dizer, uma advertência e castigo sem poder jogar, brincar ou sair na rua por um mês, tudo porque eu fui cruel ao ponto de trancar um menino com problemas psicológicos cheio de traumas e que tem crises de pânicos em qualquer situação diferente das casuais dele. Mas ainda sim naquela época eu não tinha noção do quão grave era aquilo e nem ao menos imaginava que poderia deixar traumas.
Aliás vendo o Sehun adolescente, frio, calculista ele não parece ser o tipo de pessoa que se afeta com alguma coisa, ele parece ser feito de ferro e sem sentimento algum. Na verdade, ele tem um sentimento. Ódio.

E este sentimento resultou em uma coisa: vingança.