Desde pequena, sua mãe sempre lhe dizia que deveria fazer o máximo para estar sempre em primeiro lugar, ser sempre a única e ter sempre amor próprio, nunca se importar com as opiniões alheia e acima de tudo ter algo que sua mãe não tinha: Confiança.
Era uma cena natural, sempre que chegava da escola, seus pais estavam brigando, então seu pai agredia sua mãe e si gritava, mas ela lhe mandava calar a boca e ir para o seu quarto enquanto eles continuavam discutindo. Era exaustiva ao extremo toda aquela rotina de todos os dias, em que seu pai bebia e sua mãe chorava e que todos os vizinhos a encaravam quando passava na rua para ir a escola.
Na escola as coisas eram normais, se dedicava em tirar boas notas e apesar de não ter muitos amigos se esforçava para ter o reconhecimento dos professores. Não ligava para os olhares estranhos que os alunos de sua sala que moravam na mesma rua que si lhe enviavam, somente afundava o rosto no livro e tentava se concentrar na aula tendo as palavras de sua mãe em sua mente, não conseguia fazer nenhuma amizade na escola, por seu excesso de timidez e a ideia de que nunca teria nem sequer um amigo. Bom, é uma incerteza normal para todas as crianças, mas para si, ela continuou até a adolescência. Não importava o que fizesse era como se as pessoas não quisessem tê-la por perto, então apenas suspirava e fingia não ouvir os cochichos que ouvia da maioria de seus colegas de classe. Por causa daquilo, sua depressão ficava pior a cada dia e sua solidão crescia junto a ela.
As palavras de sua mãe eram totalmente invalidas, ninguém gostaria de uma menina como si por perto, poderia haver qualquer coisa dentro de seu coração menos confiança. Podia haver ódio, vergonha, medo, timidez... Menos confiança.
Até que um dia, um garoto havia ido morar em sua rua. A pessoa mais doce e gentil que já havia conhecido.
Ah, talvez eu sou um trapaceiro
Por roubar seu coração
Lembrava-se da cena vergonhosa em que estava no pátio da escola debaixo da escada, chorando como uma criança depois de mais uma briga desgastante de seus pais quando sentiu uma mão afagar seu cabelo, uma mão que veio junto a um sorriso e que a fez olhar para cima, surpreendeu-se ao ver os olhos brilhantes do garoto que morava na casa em frente da sua.
E talvez eu sou um trapaceiro
Para não me importar com isso
— Acho que alguém aqui precisa de um abraço.
Foi isso que ele disse à uma desconhecida, e si sem opção apenas retribuiu, ele sentou-se ao seu lado e a abraçou mais forte dizendo que ficaria tudo bem e que não havia com o que se preocupar, ele disse que estaria sempre ali pra que quando quisesse chorar ele viesse confortá-la novamente.
Sim, talvez eu sou uma má.
E aos poucos sentiu que estava finalmente ganhando uma amizade.
Mais tarde, descobriu que o nome do tal garoto era JongDae e que ele havia se mudado há pouco tempo. Sua mãe estava procurando por trabalho e em seu estado estava escasso de se achar, então ele se mudou junto com sua mãe para que ela pudesse ter melhores oportunidades. Ele era engraçado, a fazia rir quando tinha vontade de chorar e sempre que ele afagava sua cabeça era como se não houvesse mais problemas, como se tudo a sua volta fosse totalmente passageiro e que um dia seria a pessoa mais feliz do mundo.
Mas, baby, eu sei.
Ele lhe fazia sorrir quando ninguém no mundo conseguia tal proeza.
E estes dedos
nunca irão correr pela sua pele
Sua maior felicidade do ano foi saber que Chen (apelido que dera carinhosamente) estava na mesma sala que si, era como um sonho realizado. Sentavam-se juntos, dividiam seus lanches e conversavam sobre coisa não importantes, com ele não se sentia mais sozinha, não era mais a garota inútil que ficava sentada no canto ouvindo sussurros e fofocas desagradáveis. Agora seu coração estava quente e naquele ano nenhuma lágrima sequer molhou seu rosto.
E esses olhos azuis brilhantes
só podem encontrar os meus
Porém, assim como todas as pessoas normais Chen também era normal, e sendo normal fazia amizade com outras pessoas normais. Ele tinha várias amizades, por ser gentil e engraçado, qualidades essas que si não tinha, pois nunca aprendeu a ser assim, no ano que se passou ele ficou ainda mais popular e agora tinha amizades de todos de sua nova sala.
Não podia ser como ele, mas não iria impedir sua felicidade então somente se calou.
Em uma sala cheia de pessoas
que são menos importantes do que você.
Foi justamente a distancia que a ensinou o quanto estava dependente de seu melhor amigo e em como seu coração doía em estar longe dele.
Foi que descobriu que estava apaixonada.
— Ei, você tá legal? — ele perguntou sorrindo — Parece estar meio aérea hoje.
— Desculpe — sorriu largamente — Eu estava ouvindo.
Chen estreitou os olhos.
— Então o que eu disse?
Abriu a boca para falar, mas se deu conta de que realmente não havia prestado atenção.
— Me desculpe, pode repetir?
— Sua cabeça de venTo — afagou seu cabelo — Estava dizendo que... Estou gostando de uma garota.
Seu coração acelerou.
— Mesmo?
Sua garganta estava seca... Suas mãos tremiam, e logo um nervosismo foi tomando conta de seu corpo. Gostaria de não ter ido a escola naquele dia, gostaria de não ter escutado aquilo.
— Sim, eu a pedi em namoro.
Lágrimas traiçoeiras embaçaram sua visão, tratou de disfarçá-las com um sorriso ainda maior.
— E ela?
Chen ainda sorria contente.
— Ela aceitou.
Porque que você ama, ama, ama
Quando você sabe que eu não posso amar
A pessoa que lhe fazia sorrir foi à mesma que lhe fez voltar a chorar.
Depois de tanto tempo as lagrimas grossas não fizeram questão de prendessem em seus olhos, elas caíam sem piedade enquanto no calor de seus lençóis tentava disfarçar que seu coração havia sido negado sem ter nem o tempo de ter sido oferecido.
Era como se uma flecha atravessasse seu peito.
Então eu acho que é melhor
Nós dois esquecermos
Antes de nos alongarmos nisso
Tentava sorrir vendo a imagem dele sendo feliz com sua nova namorada, enquanto sorriam juntos sem se importar com a sua dor. Por que sabia que em algum lugar de seu coração também tinha espaço para si, porém esse espaço nem de longe era maior do que o dela.
Mas não poderia ser egoísta com alguém que cuidou tão bem de si.
O jeito que você me abraçou tão apertado
Durante toda a noite
Até perto do amanhecer
Tentou normalizar sua situação, tentou ser forte.
Mas não conseguiria sozinha.
— Oi — disse o estranho sentando-se ao seu lado na mesa da cantina, que agora tinha somente si sentada por Chen estar junto a sua namorada.
— Oi. — Respondeu tímida.
— Você parece triste — ele a olhou com preocupação, logo ele abriu a mochila e tirou a barra de dentro dela — Quer chocolate?
O encarou com estranheza.
— Você costuma dar chocolate para pessoas tristes?
O estranho maneou a cabeça.
— Costumo dar mais ainda para pessoas felizes — piscou — Então fique feliz, assim eu te darei mais chocolate.
Riu ainda timidamente.
— Eu sou Yixing... Mas meus amigos me chamam de Lay.
— Yixing...— deixou o nome sair de seus lábios com hesitação.
Ele sorriu.
— Sim.
Porque que você ama, ama, ama
Quando você sabe que eu não posso amar
Lay se tornou uma pessoa essencial, não que ele substituísse Chen de alguma maneira, mas ele era especial. Ele a fez voltar a sorrir e sempre que estava com ele poderia amenizar sua dor. Ele era como uma espécie de remédio que se toma para a felicidade.
Ele também se tornou seu amigo.
— Ok, faça uma pose — disse Yixing virando o celular pra ambos, olhou rindo.
— Não gosto de foto — reclamou pondo as mãos no rosto.
— O que está dizendo? Você é linda, pessoas lindas tem que tirar fotos.
Corou com o comentário dele, olhou para o lado e infelizmente seus olhos pousaram na cantina, onde Chen e sua nova namorada sorriam com carinho um para o outro. Abaixou o olhar com tristeza.
Reparando isso, o mais velho beijou-lhe a bochecha surpreendendo-a.
— Você... Lay!
Ele riu.
— Não fique remoendo isso — Ele alisou sua bochecha, exatamente onde havia beijado olhando em seus olhos — Eu não quero ver você triste, quero que sorria. Eu já disse né? Eu adoro seu sorriso.
— Não sei o que eu faço com você — sorriu.
— Tire uma foto comigo.
Deu-lhe língua, e este fez uma careta.
E aos poucos foi percebendo que a presença constante dele aos poucos foi curando as feridas deixadas por Chen, e ver o casal junto não doía mais tanto assim.
Porque que você ama, ama, ama
Quando você sabe que eu não posso amar
— Vamos a sorveteria hoje.
O encarou.
— Está chovendo Lay...
— E o que isso tem haver? Vamos tomar sorvete, eu estou com vontade de tomar sorvete. E se eu morrer amanhã? Quando fizer sol? Se tem que fazer uma coisa tem que fazer na hora.
Riu.
— Bem estranha sua forma de pensar, e depois? Quando a gente ficar doente?
Ele a olhou timidamente.
— Eu compro remédio pra você.
O empurrou de leve no ombro.
— Não é melhor só prevenir?
Ele abriu o guarda-chuva e saiu da entrada do colégio que serva de abrigo, ergueu a mão em sua direção.
— Vamos logo, My lady?
Pegou a mão dele, indo para debaixo do guarda-chuva.
— Idiota.
Porque que você ama, ama, ama
Quando você sabe que eu não posso amar
— Chen... — Engoliu seco vendo o garoto na porta de sua casa.
— Oi — ele exprimiu os lábios ao ver Yixing ao seu lado, Lay estava atrás de si, com uma panela de brigadeiro ainda fumegante nas mãos — Estou atrapalhando?
— Não... Quer dizer, quer entrar?
— Não, Na verdade eu vim te fazer um convite — sorriu — Bom, já tem algum tempo que nós não nos falamos e eu estava com saudades... Então eu gostaria de saber se você não quer ir ao cinema amanhã comigo e com a Yu Na.
Claro que ele não sabia que havia sido seu primeiro amor, claro que não.
Não era culpa de JongDae mas aquelas palavras lhe doeram, mesmo que houvesse a companhia de Yixing aquela dor ainda não havia passado, e ter que ir ao cinema com ele e sua namorada, vendo ambos sorrirem apaixonadamente um para o outro só faria com que seu coração recém curado tivesse as feridas abertas novamente.
Mas ao mesmo tempo, não podia recusar, Chen não sabia sobre sua paixão por ele e era obvio, estava em seus olhos que o pedido foi inocente.
— Nós vamos.
Olhou para a figura de Lay que havia se pronunciado. “Nós”, ele disse?
— Eu... — Lay piscou para si — Nós vamos, quer dizer, se não houver nenhum problema eu quero que o Lay vá junto.
Chen sorriu largamente.
— Entendi... — encarou-a malicioso — Vocês estão namorando?
— Sim — respondeu Lay antes de si mais uma vez — Nós estamos.
Porque que você ama, ama, ama
Quando você sabe que eu não posso amar...
— Por que disse aquilo?
Ele lhe encarou por alguns segundo, sentada sobre o sofá com as mãos sobre o colo. Foi até si e pegou suas mãos olhando em seus olhos que estavam imersos em pensamentos.
— Por que eu gosto de você — ele riu sem humor — E você gosta dele. Eu te amo e você o ama, eu não quero que você se machuque e você não quer que ele se machuque, estamos num grande circulo certo? Eu amo você, você o ama, ele ama a Yu Na...
— Lay... — seus olhos marejaram.
Ele limpou as lágrimas que começaram a molhar seu rosto.
— Está chorando por eu ser um fracasso?
Foi a primeira vez que o viu tão cabisbaixo.
— Não... Estou chorando por que você está errado — inclinou-se deixando que seus lábios tocassem os dele.
Foi um beijo longo e saudoso. Como se já tivessem feito aquilo antes que tivessem falta de fazer novamente, como se só existissem vocês dois e nada pudesse atrapalhar, nem a briga de seus pais, nem seu antigo amor por Chen, nem as dores que ambos compartilhavam. Quando os lábios dele moldaram os seus era como se nada pudesse dar errado, quando sentiu o gosto doce da língua dele em contado com a sua...
Estava certa de que o amava.
Então, separaram-se minimamente já sentindo saudades.
— Uma vez eu pensei que o fato de Chen amar Yu Na mais do que a mim era por ela ter um espaço maior do que o meu no coração dele. Comigo é o mesmo... Eu amo Chen, mas o seu espaço no meu coração é maior.
Porque que você ama, ama, ama
Quando você sabe que eu não posso amar você.
Ele beijou-a novamente, só que desta vez mais breve.
— Eu te amo — ele murmurou contra seus lábios.
— Eu sei... Eu também te amo.
