Aron: Vermelho Maça


— E-Eu quero participar — sua voz saiu tão baixa que o representante da classe franziu a testa tentando compreender o que tinha dito. — Eu quero ajudar.
Agora, de maneira um pouco mais alta, enquanto o vermelho espalhava-se por seu rosto e sentia um breve tremor em suas pernas. Lágrimas de constrangimento formaram-se no canto de seus olhos quando algumas pessoas da sala lhe encararam surpresas — a outra metade se mantém em seu burburinho constante.
— Ah... — O garoto parecia indiferente as suas ações, e um tanto confuso por ouvir sua voz pela primeira vez em um ano inteiro. — Então, você pode fazer as luminárias, não há mais tanto trabalho para ser feito.
Desde que era pequena, seus problemas para com interação com outros que não fossem seus familiares eram dominantes em sua vida. Tudo bem; é normal que existam pessoas tímidas, mas no seu caso a timidez tinha tomado uma proporção um tanto anormal.  Imagine só, nem mesmo um amigo em três anos, no ensino fundamental era mais fácil se misturar entre os alunos, por intermédio de excursões e trabalhos em grupo que havia em sua antiga escola. Mas ao chegar ao ensino médio às coisas havia ido por água abaixo, não era sua intenção ser tão tímida a ponto de espantar as pessoas quando se escondesse debaixo do seu capuz, entretanto sua situação se tornou crítica quando percebeu que o ano estava acabando e era quase como se já fosse parte das carteiras da sala de aula.  Lembrava-se voz terna da sua mãe, tentando solucionar seus problemas com as outras pessoas, tentando lhe orientar e dizer que pelo menos um amigo não lhe faria mal, mas queria que ela simplesmente entendesse que não era tão fácil, quando chegava perto de alguém não conseguia se mover suas bochechas coravam violentamente e seu único impulso era procurar um lugar para se esconder como um bichinho acuado.
Um suspiro deixou seus lábios quando saltou do ônibus e começou a andar em direção a sua rua. Sua irmã mais velha era o oposto completo de si, na verdade, as pessoas só a conheciam por causa dela. Mas entendia de certa forma o motivo, sua irmã tinha um sorriso sempre sincero e bonito, não tinha inveja dela por ser mais reconhecida, apenas queria que as pessoas lembrassem de si por quem era e não por causa de sua bela e alegre irmã.
Quando o inverno chegava às flores que estavam plantadas ao lado de sua casa se encolhiam, o céu se tornava um grande véu cinzento que as árvores balançavam furiosas pela força do vento. Dentro da sala era o único lugar que poderia se manter a aquecida, mesmo assim, ainda sentia suas bochechas quentes e tomando um tom de vermelho.  Assim, apressou o passo afim de não molhar-se coma chuva que estava se formando, o céu estava em uma transição de cinzento para escuro o que significava que em breve a chuva cairia muito fortemente. Apesar de sua casa não ser tão longe imaginou que não conseguiria chegar a tempo já que os chuviscos já molhavam seu cabelo e seu rosto.
E como havia pensado... A chuva começou a cair, gradativamente formando gotas grossas e molhando seu uniforme, arfou e tentou cobrir-se com as próprias mãos, vendo que sua tentativa seria totalmente falha foi para debaixo de um lugar onde as telhas antigas faziam da sacada da casa antiga um abrigo para que passasse a chuva.  Apertou os braços molhados em volta da própria cintura, sentindo frio por causa da umidade, estreitou os olhos olhando para o caminho da sua casa embaçado pela chuva e se sentiu cada vez mais frustrada.
O pensamento de que teria que fazer as luminárias — sozinha — bateu em sua memória, como se fazem mesmo luminárias artesanais? Ninguém de sua sala tinha intenção de ajudá-la já que não lhe conheciam direito.
Cortando sua linha de pensamento, encarou o vulto que apareceu de repente na chuva, o garoto alto corria e seus cabelos eram violentamente atingidos pelos pingos grossos da chuva, sim... Ele estava muito molhado, e corria em direção ao mesmo abrigo que o seu o que a fez ficar nervosa. Ficaria sozinha num abrigo com um estranho? Traçou sua estratégia rapidamente antes que ele chegasse, iria somente abaixar a cabeça e não olharia em seu rosto para que este não tivesse a oportunidade de puxar assunto consigo.
E então, o estranho chegou mais perto, seus cabelos eram castanhos, sua pele pálida demais para alguém de sua cidade e os olhos eram puxados. Entendeu que se tratava de um estrangeiro, ou pelo menos um descendente, porém não achou que fosse alguém de sua rua já que era pequena demais e todos se conheciam, nunca o tinha visto por aquelas bandas. O garoto em questão olhou para seus olhos, bem no fundo deles logo na primeira encarada, ele entreabriu os lábios e si sentiu suas bochechas queimarem de vergonha, suas mãos suaram o que a fez apertar a calça que vestia na intenção de enxugá-las. O estranho desviou o olhar para a chuva, e si suspirou aliviada e um tanto sem graça pela interação repentina.
De alguma maneira, sentia que já havia visto aquele rosto em algum lugar, forçou sua mente tentando lembrar-se de onde e ainda sem ter coragem o suficiente de encara-lo de novo seu trabalho de lembrar se tornou mais trabalhoso. Foi então que o estranho se pronunciou.
— Ah, Olhe pra essa chuva toda... — ele murmurou, e si encolheu-se esperando que essa fosse a única frase dele. — Eu nem ao menos moro por perto, Você mora?
Brincou com os próprios dedos.
— M-Moro. — mesmo que sua resposta significasse que teria que começar uma conversa, achou deselegante não responder já que não tinha pra onde fugir.
— Hm... Você é irmã da Nana, não é? — A pergunta foi direta, e fez com que si o encarasse um pouco transtornada. Ele por sua vez mantinha uma expressão gentil mesmo não sorrindo.
Ele conhece minha irmã. Mas quem não conhece? Pensou nervosamente.
— S-Sim. — respondeu em voz baixa.
— Já nos vimos antes, fui a sua casa com a Nana na semana passada. — ele fez uma pausa e voltou a encarar a chuva. — Eu disse oi e você correu.
Sua mente lhe mostrou a memória de sua irmã junto a um grupo de amigos, si estava olhando hesitante escondendo-se detrás da porta. Um deles lhe viu e sorriu murmurando um “oi” em voz baixa e acenando educadamente, ficou tão envergonhada com a atitude que correu em direção ao seu quarto sentindo as bochechas pegando fogo.
— E-Eu acho que me lembro.
Ele sorriu.
— Fico feliz que se lembre de mim. — O garoto do qual não sabia o nome ainda sorria. —Você estuda por perto?
O encarou hesitante.
— Nem tanto — não gaguejou e agradeceu por isso, embora sua voz ainda soasse baixa demais. — Vai para minha casa? — ele arregalou os olhos parecendo surpreso — D-D-Digo, visitar a Nana...
— Na verdade, eu vou entregar esse livro pra ela.
— Eu posso entregar se você quiser. — ofereceu-se vermelha.
Por algum motivo, ele riu baixinho e isto fez com que a tonalidade constante em suas bochechas se tornasse mais intensa.
— Eu posso fazer isso, não se preocupe.
E em um ato que julgou ousado demais para um estranho, o garoto beliscou uma de suas maçãs rosadas ainda sorrindo divertido.
— O q-que está fazendo? — perguntou levando a sua mão até o lugar, lagrimas de constrangimento formando-se em seus olhos.
Ele parecia se divertir com sua timidez.
— Você fica muito fofa vermelha, me lembra uma maçã.
 — Maçã? — indagou confusa e ainda mais envergonhada com a comparação.
— Vermelha e bonita, exatamente como uma maçã.
A chuva cessava e logo apenas as folhas das árvores faziam que os pingos molhassem o chão. O garoto estranho saiu do abrigo e indicou o caminho com a cabeça, chamando-lhe para que viesse junto com ele. Ainda sentia a mão quente que apertara sua bochecha.
Foi exatamente no caminho de casa que conheceu mais sobre o menino amigo de sua irmã mais velho, seu nome era YoungMin Kwak — um nome deveras esquisito, diga-se de passagem — ele esclareceu que era por sua descendência por parte de mãe, mas viveu toda sua vida naquela cidade ao invés de viver na Coréia por isso todos o chamavam de Aron (Imaginou que era pelo fato de ser mais fácil, já que nem si conseguia pronunciar o nome verdadeiro dele). Ele estava na mesma classe de Nana na faculdade, ambos faziam jornalismo e particularmente imaginou como ele era em sala de aula, ele parecia alguém popular exatamente como Nana era e provavelmente muitas garotas deveriam ser interessadas nele.
Aron era uma pessoa alegre como Nana, não era por nada que eram amigos. E quando ele também se tornou seu amigo não teve como não admitir que ficou muito feliz por ele ter lhe dado a mesma atenção que dava a sua irmã. Nana por sua vez, parecia não gostar muito do fato de que si e Aron estavam se tornando próximos, lembrou-se de uma vez em que ele acenou contente do lado de fora de sua casa para a janela de seu quarto, onde si observava ele e Nana conversando. Nana lhe fulminou com o olhar e aquilo a entristeceu, pois não esperava isso dela.
Certo dia comentou isso com Aron quando ele começou a ajudá-la com as luminárias artesanais da escola.
— Talvez a Nana goste de você. — sua voz baixa pronunciou enquanto cortava o PVC e ele lhe olhou surpreso.
— Por que acha isso?
Deu de ombros.
— Ela parece um pouco incomodada quando nos falamos, não quero estragar a amizade de vocês que já dura há mais tempo que a minha.
Ele largou a tesoura e afagou sua cabeça, bagunçando seus fios e a deixando novamente com a tonalidade vermelha em seu rosto.
— Não acho que seja assim e se for desse jeito eu não posso fazer nada, realmente não quero ficar longe de você por causa dos ciúmes da Nana.
— N-Não diga essas coisas...
— O quê? — Aron riu — Não fique tão vermelha, eu não disse nada demais!
— Isso é muito constrangedor — levou as duas mãos até suas bochechas quentes.
Ele maneou a cabeça.
— É Por isso que não daria ouvidos a Nana. — olhou em seus olhos. — Eu não conseguiria viver sem te fazer corar.
 Idiota.
— Não seja arisca — deu-lhe um beijo carinhoso em sua tez. — Não combina com você.
Então, a partir de suas ações dele desencadeou muitos sentimentos complicados demais para até mesmo si entender. Tudo o que pensava era nele, em como era bonito, em como era carinhoso e em como era seu único amigo. Já havia sentido aquela mesma coisa antes, aquele sentimento que fazia com que seu coração acelerasse e mil borboletas batessem asas em seu estomago, mas nunca esteve tão perto de alguém, numa convivência tão simples. As pessoas se afastavam graças a sua timidez, mas Aron quis conhecê-la, quis vê-la através disso... Até hoje não entendia direito como aquilo foi acontecer, aquela sensação quente e acolhedora, que chamavam de amor.
Era confuso e estranho. Porém algo que gostava de sentir.
Estava pronta para se declarar, dizer-lhe que gostava dele mais do que pudesse se controlar. Apesar de achar-se imatura, não o perderia, não podia virar as costas para a primeira pessoa que se importou de verdade. Combinou então que o faria na noite da festa, o convidou timidamente para que fosse ver as luminárias que ele mesmo havia ajudado a confeccionar e ele disse que com certeza estaria lá. Se sentiu feliz por saber que Aron importava-se consigo também, e mesmo que não estivesse sabendo diferenciar amor de uma amizade, se declararia e saberia se aquele sentimento esquisito e invasor era real.
Na noite da festa tratou de pôr sua melhor roupa, não estava costumada a confraternizar então ainda se perguntava se aquela estava adequada, Aron disse que a encontraria lá, como a festa de sua escola seria em um local aberto qualquer pessoa poderia ir, deduziu que Nana também fosse e isto fez de si mais apreensiva.
Quando chegou ao local as suas luminárias enfeitavam a estrada, estava melhor do que achou que ficaria. Sorriu levemente por seu trabalho bem feito.
— Ficou muito bonito. — disse o representante da classe, a recebendo na porta. — Você deveria mostrar mais seu talento.
Corou com o elogio.
Muito Obrigada. — sorriu largamente de contentamento.
Partiu pela estrada em busca de onde Aron poderia estar. Só havia pessoas de sua rua e da sua escola, o local não era muito grande então não seria uma missão difícil, Atravessou o espaço olhando em volta até que no meio das pessoas viu Aron.
Ele não estava sozinho... Estava abraçando Nana.
Um abraço poderia não significar muita coisa, se sentiu ridícula por dar importância para algo assim, mas voltou pelo mesmo caminho e foi em direção a entrada, se livrando das pessoas e sentando-se no passeio, junto as luminárias que o enfeitavam. Seus olhos encheram-se de lagrimas estranhas, mas por quê? Por que se sentia tão triste?
Sim, estava insegura. Esta era a resposta.
Um estalo dos lábios em sua bochecha a fez acordar de seu raciocínio, olhou para o lado encontrando o rosto animado da pessoa que outrora lhe fez chorar. Ele se agachou a fim de ficar da sua altura, já que estava sentada.
— Como me chama para uma festa e some? Não é isso que uma boa anfitriã faz. — tentou limpar suas lágrimas e esconder seu rosto, porém ele lhe impediu. — Você está chorando? O que aconteceu?
Sua voz era preocupada, inocente por não saber que ele era o motivo de suas lágrimas.
— Não tem nada de errado.
— Não? E por que você não está gaguejando como sempre faz?
Olhou para os dedos dele que ainda fechavam seu pulso impedindo-a de limpar suas lágrimas.
— Estou triste — confessou.
— Por quê? — ele indagou ainda preocupado.
— Por que você estava com a Nana, E-Eu sei que é tão patético, mas... Eu gosto de você, entende? — fechou os olhos para não poder encara-lo. — E vê-lo abraçando ela me deixou muito triste, eu sou boba eu sei, mas eu não quero que você me abandone. Eu gosto tanto de você...
Ele puxou sua cabeça para o peito dele, levando sua mão até os lábios e beijando-a, logo beijou sua pálpebra quando fechou os olhos, beijou a ponta de seu nariz a deixando constrangida, descendo para finalmente encontrar seus lábios. Em um beijo quente e molhado por suas lágrimas, nada profundo, mas ainda assim muito significativo, ele pôs sua mão junto ao peito dele para que sentisse a batida de seu coração.
Estava acelerado, igualmente ao seu.
Então a repentina insegurança havia sumido, era como se não houvesse ninguém além dos dois ali, seus corações batendo no mesmo ritmo enquanto aquele beijo era trocado, e os lábios dele ainda moldavam os seus como se estivesse com medo de machucá-la, tão cautelosamente e carinhosamente, quase um afago. Os lábios dele eram doces e misturavam-se com suas antigas lágrimas.
Aron separou-se de seus lábios, e encarou seus olhos, antes de rir de algo do qual não sabia.
— Nana e eu não temos nada, Idiota. — ele sorriu, acariciando sua bochecha. — Afinal, MinHyun não ficaria nada contente se algo assim acontecesse.
Ele olhou para algo dentro do espaço, e si acompanhou seu olhar para encontrar Nana dançando com o antes citado.
— O representante? — levou a mão até boca por estar surpresa, nunca imaginaria que Nana estaria saindo com o representante de sua sala.
— Eu nunca poderia gostar da Nana, Ela pode ser bonita, mas ela não tem a característica que eu mais gosto.
Piscou confusa.
— Que característica?
Ele beijou novamente seus lábios.
— Ela não tem o mesmo vermelho maçã das suas bochechas. — Roçou seus narizes antes de sussurrar. — E como eu havia dito, eu não conseguiria viver sem te fazer corar.